Sempre fui um tanto céptica relativamente aos benefícios do mundo virtual para acreditar que, desse, transportaria para o meu, real, pessoas que passariam a ser muito minhas. É sabida a minha resistência a entrar no mundo facebookiano e a falta de atenção que devoto àquilo. Raramente me dispus a sinalizar-me com verde nas conversas de chat do e-mail. Ontem percebi que já me tinha esquecido que um dia tive uma coisa chamada msn (notem o quanto lhe ligava). Fiz um curso superior já no século XX e mantive-me durante os cinco anos que durou sem qualquer computador atrelado a mim. Havia um computador em casa dos meus pais, mas raramente o usava. Cultivo o mais que posso as conversas olho no olho em detrimento de qualquer moda mais moderna de ligar câmaras e falar por skypes ou coisas dessas. Nunca, na sequência disto, entrei num dos muitos chats de relacionamentos que por aí há, fosse para conhecer gente ou ver só como funcionava aquilo. Mas não sou bota de elástico. Acho que não sou. Tenho dois amigos casados há dez anos e que se conheceram pela internet, em pesquisas comuns sobre uma cidade para onde pretendiam ir estudar. Tenho outra amiga que diz ter encontrado o amor da vida uma vez que estava a ver fotografias de uma festa de uma colega no computador e bateu os olhos num homem que jurou viria a ser seu. É. Há 12 anos. Tenho um blog. Já me apaixonei por uma pessoa que conheci porque também tinha um blog. Tenho algumas minhas novas pessoas conquistadas primeiro por aqui. Portanto, eu não posso dizer-me desconfiada relativamente a isto. Mas. Pois, como numa série de outras coisas, também nesta o meu discurso tem um mas. Não é o mas moralista que a primeira frase podia anunciar. Não. É um mas bem mais comezinho, um mas que se baseia numa coisa muito simples: por aqui, sabemos do outro que existe e, gostando do que nos diz e de como nos faz sentir, mais umas coisas a seu respeito. Em princípio, não fazemos confidências a alguém que nunca vimos e não acalentamos por gente que pode, até prova em contrário, ser um personagem, muito mais do que, quando muito, paixonites agudas que são boas para despertar os sentidos, mas pouco mais. (Certo, concedo, já me aconteceu essa troca de confidências duas vezes com pessoas que nunca tinha visto, mas a verdade é que essas pessoas também tinham um blog e, apesar de tudo, estou com quem diz que é muito difícil manter um personagem por anos a fio, pelo que os blogs, sobretudo estes assim, como o meu e o dessas pessoas, inevitavelmente, têm muito do que somos.) Pelos blogs, acho eu, sinceramente, cria-se uma espécie de laços. Há pessoas que nos acompanham durante demasiado tempo para que possamos ignorar que já sabem muito de nós. Há uma cumplicidade, até, que se escora nos comentários, no conforto de saber que há quem nos apoie e torça por nós em momentos difíceis, quase sempre sem cobrar-nos mais explicações que as que damos, e em sabermos que ficam felizes, contentes, vá, quando uma coisa nos corre bem. É talvez por isso que gosto tanto de ter um blog. É muito por isso que me assusta, como há pouco tempo disse, a ideia de muita gente a seguir-me. Gosto de ir controlando as minhas pessoas blogosféricas com algum desvelo, absolutamente incompatível com a massificação dos seguidores. Mas isto são os blogs. Ninguém me tira da ideia, até que me prove com factos, que podemos crescer em pessoas, ganhar amigos, conhecer amores, o que seja, por esta via, se, naturalmente, a isso se seguirem os passos todos normais, consequentes e serenos, que compõem as relações que valem a pena. O blog não passa, pois, da esquina da vida em que nos esbarrámos, não tendo de acarretar com a enorme responsabilidade de ser o palco inteiro da história. Mas, dizia eu. Ora, mas isto já não pode acontecer assim quando se conhece alguém de quem não se sabe nada e se pulam etapas, se marcam encontros da primeira vez que se falam, sem se saberem nomes reais, sequer, ou, sabendo-se, quando isso serviu apenas para se vasculharem bocados da vida no livro das caras. Tenho medo dessas aventuras. Não me imagino a vivê-las. Nem pela adrenalina. A sério. Posso sempre dedicar-me a outras coisas em busca dessa necessária adrenalina, sei lá. Há gente doida, neste mundo. Há mentes com muitos problemas, pessoas. A minha limitação genética para estas andanças já se percebe bem pela incapacidade que mostro nos
dates, mas se sou assim em dates (Até parece que passo a vida nisso... mas não passo, mesmo. Sobram-me vários dedos de uma mão se me puser a contá-los!) com pessoas que têm amigos em comum comigo, de quem já ouvi falar ou que, pelo menos, acompanho há meses pela escrita, não quero imaginar o camadão de nervos (ou não... que eu sou estranha) em que mergulharia se me desse para ir encontrar uma alminha de quem sabia apenas o nick do chat onde nos falámos uma única vez... e tumbas, vai de marcar encontro! Chamem-me medricas. Deve ser isso. Mas não concebo, pronto!