sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pessoas

Morreu o Ti Marcelino. Ontem. Com 99 anos.
Há precisamente 5 anos, faz hoje, vivia-se cá em casa a minha festa de curso. Por volta das seis, um pouco depois da Missa, deu-me um beijo em cada uma das mãos, fez-me o sinal da cruz na testa e pediu-me para nunca me esquecer de quem fui.
O Ti Marcelino era marido da Cecília, de quem já vos falei, que me punha camélias no cabelo e me chamava guapa. A Cecília já morreu na minha infância. O Ti Marcelino morreu ontem. Com 99 anos. Parou de respirar. E, com ele, foram-se, definitivamente, as crianças de há muito com quem partilhei os meus primeiros saberes. Recordo-os hoje, que se juntam finalmente todos a jogar uma cartada ou a conversar sob uma oliveira do céu. Os meus avós de baixo, a Mã e o Ti Ribeiro, o Grazino, o Neco, o Tibério, a Cecília e o Ti Marcelino. Esforçar-me-ei por nunca me esquecer de quem fui, numa doce luta por nunca me esquecer de cada um de vocês. Pessoas.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sense

Fica.

Por sentir.


O que escrever.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Hoje

vou ouvir, ao vivo, Mariza.
E morder a verdade que diz que "quem quer, vê amor até numa cuspidela".

Para a engolir.

HUC

Quando conseguir, recupero para aqui a minha memória de mais uma passagem pelas Urgências dos HUC. Em princípio, o local onde achar um médico com vocação corresponde, em dificuldade, à caça de uma agulha num palheiro.
Para não esquecer, fica já o registo do calhau com olhos que, diante dos esgares de dor de uma dúzia de pessoas, se vestiu de pedra e relatou, qual dama ofendida, a injúria de ter sido notificado por uma juíza como "Exmo. Senhor doutor". Doutor com minúscula! E doeu-me a minha suada média de 18,5 do secundário por algum dia me poderem ter comparado àquele projecto de profissional que a única coisa que alcançou na vida foi ter nota para entrar em medicina. Doeu-me mais ainda ter o meu pai deitado ao lado do vomitador compulsivo de disparates. Mas, no fundo, sorriu-me o umbigo, ao de leve, com o descaramento da audaz juíza!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Aqui Onde se Espera

Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,

Aqui onde, dormindo,
- Sossego, só sossego -
Se sente a noite vindo,

E nada importaria
- Sossego, só sossego -
Que fosse antes o dia,

Aqui, aqui estarei
- Sossego, só sossego -
Como no exílio um rei,

Gozando da ventura
- Sossego, só sossego -
De não ter a amargura

De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

Que mais quer quem descansa
- Sossego, só sossego -
Da dor e da esperança,

Que ter a negação
- Sossego, só sossego -
De todo o coração?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Wishlist

O pior de todos

é que chegues quando tiver deixado de esperar.

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

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Se por acaso (me vires por aí)

JP Simões [dueto com Luanda Cozetti]

Se por acaso me vires por aí - Disfarça, finge não ver - Diz que não pode ser, diz que morri - Num acidente qualquer - Conta o quanto quiseste fazer - Exalta a tua versão - Depois suspira e diz que esquecer - É a tua profissão

E ouve-se ao fundo uma linda canção - De paz e amor

Se por acaso me vires por aí - Vamos tomar um café - Diz qualquer coisa, telefona, enfim - Eu ainda moro na Sé - Encaixotei uns papeis e não sei - Se hei-de deitar tudo fora - Tenho uma série de cartas para ti - Todas de uma tal de Dora

E ouvem-se ao fundo canções tão banais - De paz e amor

Se eu por acaso te vir por aí - Passo sem sequer te ver - Naturalmente que já te esqueci - E tenho mais que fazer - Quero que saibas que cago no amor - Acho que fui sempre assim - Espero que encontres tudo o que quiseres - E vás para longe de mim

E ouve-se ao fundo uma velha canção - De paz e amor

Na sexta-feira acho que te vi - À frente da Brasileira - Era na certa o teu fato azul - E a pasta em tons de madeira - O Tó talvez queira te conhecer - Nunca falei mal de ti - A vida passa e era bom saber - Que estás em forma e feliz

E ouve-se ao fundo uma triste canção - De paz e amor.

Seguidores anónimos

De vez em quando visito a aplicação que me relata de onde vêm os meus seguidores. Hoje voltei lá. E no top, em primeiro, como mais fiel, mantém-se a pessoa da Praia da Vitória que eu não sei quem é mas deve simpatizar aqui com o estaminé.
Entretanto, neste momento, em segundo lugar, com visitas a ultrapassarem as duas horas, tenho um(a) fã de Tomar. Kiko(a), ficas a saber que quando era mais miúda e me perguntavam o que queria ser quando fosse grande eu dizia: "Hóspede do Hotel dos Templários"! Como vês, sempre me rendi ao trabalho como poucos... Adoro o piano do bar. E... pronto, eu, pecadora, me confesso: as fatias douradas também!
E depois há dias em que chegas a casa e pensas: "Hoje, mais valia não ter de cá saído!"
Tipo... dias assim como este!!!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Amor e uma cabana


Já acreditei mais na história do amor e uma cabana (aqui). Mas também já acreditei menos. Acho que se pode encontrar um caminho com alguns momentos felizes sem ceder ao radicalismo. Mudar de vida?! Não digo que nunca me tenha apetecido. Acordar de manhã e mandar o mundo à fava?! Pois claro que todos temos dias de dar tudo por um pedacito de coragem para fazer isso. Mas são dias. Não passam disso. Depois vêm outros em que não se está assim tão mal no lado de cá da escolha. E, de tempos a tempos, vivemos uma hora genuinamente boa. Porque, sejamos sérios, também somos o que escolhemos. Mandar o presente às urtigas é admitir que se errou em tudo. E ninguém erra em tudo. Que viver num espaço de míngua de amor é coisa triste e de evitar, pois claro que sim. Mas não é incompatível ceder ao amor e combinar isso com a vida que temos. Com a família, com os amigos, com a casa, com a profissão, com os nossos ritmos, os nossos cheiros, as nossas imagens, as nossas memórias, os nossos passados. Se precisamos mudar, mudemos. Mas isto é como nas plásticas. Se mudarmos de mais, viramos outra gente.


P.S. O que não significa que não tenha dias de achar que me bastava com tempo para permanecer na horizontal a adormecer a olhar para ti e a acordar contigo a olhar para mim.
Estou numa fase cobra: depois do escaldão, ando a mudar a pele!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Verdades e assim-assim

"Quem dorme no colo de outro perde a alma... Os sonhos não encontram os respectivos donos quando homem e mulher dormitam entrelaçados."

Mia Couto, in Terra sonâmbula

domingo, 19 de julho de 2009

A proposta

Já vi... Só porque não tenho muito amor ao sossego!

Pessoa,

vou contar-te uma coisa. Porque é importante. Mora o medo ao lado do resto. Não lhe escapei. Nem escapo. Escaparei? Muito. De uns quantos ses. Vou contar-te de uma vez. Não fales. Fica em silêncio. Espera. Deixa-me só respirar fundo mais uma vez. Isto não é fácil, não penses. Mas... então... cá vai. Humm... Pelos fios brancos que se anunciam. Pela variz da perna direita, aqui atrás, na curvinha poente do joelho. Pelas estrias. Pelas alergias que se cicatrizaram em alguns recantos. Por detestar sopa fria. Pior. Pelas cidades que não visitei, os museus em que não entrei, as praias em que não me deitei, o desertos que não cheirei. E pelos livros que nunca li, as músicas que nunca ouvi, os filmes que nunca vi. Pelas pessoas que não te conheci. Pelos fantasmas que ainda não te descobri. Pelos armários que ainda não abri. Pelos esqueletos que ainda não previ. Tanto, pelas explicações que ainda não dei. Mais, pelas razões que nunca encontrei. Calma. Há mais. Sobretudo, pelo que ainda não vivi. Mas, por agora, acho que basta. Fiquemos por aqui. Também tenho medo. Não penses.

sábado, 18 de julho de 2009

Gota de água!

Os que me conhecem do hi5 vão poder reparar que excluí tudo quanto foi foto, restringi o perfil, apaguei poeminhas e pensamentos angustiados e acabei de vez com os aplicativos. Não destruí o perfil de vez porque me custa separar assim dos colegas, amigos e familiares de quem se vai sabendo qualquer coisa pela dita via. Mas não prometo que a página resista muito mais tempo... Já não me chegavam os convites de tudo quanto é gente que não tem mais o que fazer, o facto de me entupirem o mail, agora deram para me acenar com descrições tipo "ando procura de babe que me prienxa". Ninguém merece!!!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sugestão


Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.


Cecília Meireles, in Mar Absoluto

Há esperança!

Contra todas, mas todas mesmo, as expectativas criadas ao longo dos últimos quatro anos... então não é que hoje me travei de argumentações com um aluno giro, inteligente e bem-humorado, tudo num masculino só?! Mais crescido, capaz de me dar como exemplo de uma despesa sujeita à colação um doutoramento fora (estou farta dos casamentos nas Quintas caras e das luas de mel nas Maldivas), concentrado no caso em que eu faço o meu homem vender a casa que já tinha em Coimbra porque prefiro um palheiro na Praia de Mira, compro os móveis todos nos Catarinos e ponho o apaixonado a andar porque me rendo ao salva-vidas, reclamando em tribunal que o palheiro tem a minha cara e tem, porque tem, de ficar para mim... Este aluno concentrou-se. Não se riu. Disse-me, com um ar sério, que já bem bastava o meu homem ficar sem mim (perda irreparável), não o podia agora também privar do palheiro. Porque, ora bolas, ele tinha uma casa espectacular em Coimbra, mas eu, qual cabra, fi-lo perder a cabeça... iludi-o, vá. E pronto, não há terceiros, não há documento, mas fica-me mal desgraçar assim alguém que mudou de vida por mim... Este aluno, atente-se, tem um nome permitido (momento de lágrimas nos olhos e foguetes de luzes sem som). Estou um bocadinho preocupada comigo!

Ooops...

Gentio,
vinde e contestai a fraqueza tamanha de uma criatura com um problema de arritmia polegária. Triste sina a da incauta, qual espécime em descontrolo. Amarrai-a, mas bem, que é de luas.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Praia


Fui... e tornei-me numa R. muito mal passada!
Eu gostava de conseguir ganhar uma cor normal. Eu gostava de ser como as pessoas que vão à praia e ficam com um ar saudável. Eu gostava de também achar que vestidos brancos me ficam a matar nesta altura porque fazem contraste. Mas não... Depois de 3 anos sem férias... eu gostava que no meu primeiro dia de praia o sol não me fizesse alergia, saudoso de mim, empenhado em fazer-me sentir desejada ali no areal. Mas não... Besuntada de alto a baixo com factores próprios para recém nascidos e sedenta de um passeio à beira mar, a molhar o pézinho em águas de João Banheiro, eu adorava ter vindo de lá com vontade de voltar já amanhã. Mas não... Estou neste momento untada de creme reparador, qual compressa sobre uma pele com dores de estalo. Alguém percebe agora por que razão eu prefiro férias sem ser de praia?!

Amanhã volto às orais. Isto foi uma pequena experiência. E... correu mal!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Num balão!


Eu não sei se vou ficar assim para sempre. Até porque sempre é muito tempo. Não dá sequer para medir. Por isso, eu não sei de dia nenhum mais além do de hoje. Eu não sei sequer se lá adiante me arrependo, outra vez. Ou se cedo, outra vez. Ou se acredito, mais uma vez. Ou se insisto, crente nessa nova última vez. Eu não sei tampouco para onde se viram as cores. Não sei. Eu, pelo menos, não sei. Sei apenas que embora não fosse mau hoje, isto era coisa para saber a menos cada dia mais. Porque isto é mais ou menos como passar a vida toda dentro de um balão, a sonhar voar lá nas alturas... mas cada vez mais prenhe de medo de morrer de espera. E em terra.
A Maya escreveu: embora o homem de carneiro seja incapaz de lhe mentir, acredite que ele é capaz de viver toda a vida nesse "faz de conta"!

R. diz: Maya, desculpa, fui muito injusta contigo! Tu não és uma adivinha de trazer por casa, tu és uma taróloga brilhante!

Porque eu gosto de chuva...

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Travestiu-se das larguras e compridos de uma ervilha.
De um lado, medo. Do outro, dúvida.
Um coração assim nem bate como deve ser...

domingo, 12 de julho de 2009

Fui!

E adorei!
Um espectáculo com vários níveis de leitura e interpretação. Da leveza de uma comédia ao abre-olhos de uma sociedade hipócrita. José Raposo faz brilhantemente o seu papel. Carlos Quintas, Rita Ribeiro, Hugo Rendas e outros contribuem para duas horas muito bem passadas. Continua sem ser destronado o "Música no Coração", que vi em Agosto de 2007, estava a música a começar a soar-me também no coração, nem o "Rainha do Ferro Velho", porque uma memória depende muito da companhia com quem a criámos, ... mas está no top das preferências. Depois de, no ano passado, não me ter deixado encantar pelo "Violino no Telhado", foi bom reencontrar um La Féria que se supera mais uma vez!
E depois, cada viagem acaba por se tornar ainda no espelho de quem a faz, do momento de quem a vive. Por isso, não podia ter estado ontem num espectáculo melhor do que aquele onde se canta "Vive a vida agora" e "O melhor da vida é hoje".
Vale a pena!
P.S. Também se almoçou muito bem no último piso da Casa da Música :) Kool!!!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Grandes asneiras, pequenas maravilhas!

"Não pode vender sem B consentir porque ele pode comessar a lapidar o património deles."
(Verdadeiros diamantes!)

"Antes dos casados serem conjugês eles são noventes."
(E às vezes caem em cada novelo... com cada nó!)

"Eles podem fazer, se quizerem, uma convenção antinupcial."
(É o que se chama ser precavido: fazer uma convenção contra o casamento para o caso de aquilo um dia dar para o torto.)

"Se são casados penso que não podem vender nem os seus bens próprios porque afinal são um casal."
(Porque o amor, afinal, é lindo!)

"Pode haver compensação se a mulher perdeu tempo a decorar melhor a casa de morada de família que era dele já antes do casamento."
(Uma pessoa apaixona-se por eles sem lhes ver as casas... Um perigo!)

Eu vou!

Armando del Carlo e Carlos Alberto são proprietários de uma discoteca em Cascais “A Gaiola das Loucas”. Carlos Alberto é o mais prestigiado transformista português rivalizando com todas as “vedetas” marginais da nossa cidade.
Armando Del Carlo tem um filho Ricardo, estudante universitário que está apaixonado por Bárbara Alarcão, filha do deputado portuense Arnaldo Alarcão, vice-presidente do Futebol Clube do Porto. A jovem Bárbara convence o seu pai conservador que Ricardo é filho de um Adido Cultural na Grécia. A família do Porto resolve ir a Lisboa conhecer a família do futuro genro o que obriga Armando del Carlo e o seu companheiro a passar por uma família tradicional e conservadora.
As situações de equívoco sucedem-se num ritmo vertiginoso e hilariante nesta adaptação de La Féria à tradição das melhores comédias portuguesas: a rivalidade Porto/Lisboa, a actualidade do nosso meio, a dualidade conservadores/liberais, a rivalidade dos clubes desportivos, na linha dos filmes portugueses dos anos 40 que alcançam ainda hoje as maiores audiências nas reposições da televisão.

A Gaiola das Loucas, de Filipe La Féria, no Teatro Rivoli.

Tanti auguri a te :)

Eu tenho um Bruno Marco-Polo, que é meu melhor amigo. O meu Bruno Marco-Polo, encontrei-o numa das fases mais fantásticas da minha vida: em erasmus. O meu Bruno Marco-Polo era o português mistério que o nosso grupo de seis tugas sabia que existia, mas que nunca ninguém tinha visto. E um dia, quando entrei no meu colégio italiano, para mais uma aula com aquela stronza, encontrei a professora dos testes de nível e que gostava muito de mim. Eu também gostava dela. Disse-me "parla molto bene" dois dias depois de ter aterrado naquela terra, ainda o ranho não me tinha sido todo assoado, crescendo à medida do desespero e das lágrimas a desconfio. Aquela professora que eu tinha tanta pena que não fosse minha disse-me, então, se podia ficar mais tempo no fim da aula, porque tinha uma surpresa para mim. E tinha. Um presente. Um presente para a minha vida toda, longa que seja, toda. Falei de ti ao Bruno, o outro português que está em Pavia e que ainda não conhece o vosso grupo. Quer conhecer-te. Eu esperei. E ele apareceu. E trocámos o olhar que havia de nos juntar para sempre. Aquele que lhe permite saber quando estou apaixonada só pela forma como falo ao telefone. Aquele que nos permite dizer "Eu Adoro-te" sem que nenhum deposite na expressão a vontade inteira de dizer eu "Amo-te". Embora seja isso. Também amamos os amigos. Amo-o como se ama um amigo assim. Nessa noite, tardia, alta, lua cheia a compor a luz do Corso Garibaldi, fomos juntos, de bicicleta à mão, para atrasar o tempo, até à Piazza Vitória. Tive de comunicar o meu presente aos outros cinco e em menos de nada estávamos a jogar conversa fora enquanto nos aquecia daqueles seis graus negativos um gelado de chocolate. Formámos um todo que nos compôs naqueles meses. Acredito que se hoje decidíssemos pegar numa mochila e marcar encontro naquela praça, não haveria faltosos. Mas uns vão-se perdendo mais que outros. Eu e o meu Bruno Marco-Polo nunca nos perdemos um do outro. Este meu amigo reclama se não lhe escrevo um postal de natal. E reclama se ele só tiver duas páginas. Este meu amigo faz-me rir, marca encontros e não falta, leva-me ao teatro, acompanha-me se me apetecer dançar de noite numa qualquer rua de Lisboa. Com ele fiz a mais louca viagem ao coração da Umbria. Saímos ao anoitecer de uma sexta feira, largando Pavia para trás, em busca de um fim de semana que nos apartasse do que não ia bem. Era fim de semana de dia de São Valentim e fizemos loucuras à custa disso. Levámos uma pendura para Peruggia, que precisava de um lugar no nosso quarto. Convencemos o dono do Hotel que aquilo era uma relação aberta e o meu Bruno Marco-Polo teve direito a piscadelas de olho ao estilo "Tu é que a sabes levar". Dormi-lhe no colo. Pois foi. E enervei-o, como a qualquer companheiro de viagem, com esta mania de não conseguir dormir sem tomar banho, ainda que se aviste a cama lá pelas cinco da manhã. O meu Bruno Marco-Polo trata-me pelo diminutivo e obrigou-me a subir a Assis (só quem conhece o trajecto da estação ao cimo do monte pode supor o quanto o rapaz é insistente). O meu Bruno Marco-Polo dá-me beijinhos na testa e diz que vai passar. E pergunta-me se eu quero que faça carta de recomendação. Ou se lhe telefona a tentar perceber. E depois se for preciso olha para mim e diz que não, que está só a brincar. Porque é verdade que eu não seria doida se levasse as ameaças a sério. O meu Bruno Marco-Polo rodopia-me se me encontra. Não poderia ser meu mais nada se não meu melhor amigo. Nem meu namorado, nem meu marido. O meu Bruno Marco-Polo é cientista. Dos a sério. Que investiga células coisa e tal no estrangeiro. Publica artigos em revistas tal e coisa e faz teses que merecem o aplauso unânime. Mas eu não gosto do meu Bruno Marco-Polo por isso. Gosto dele porque nunca me deixa sentir perdida da nossa amizade. Gosto dele porque me resgatou em horas más. Gosto dele porque nunca se esquece. Gosto dele porque tem dias em que ele é dos poucos que afirma, assim mesmo por palavras, actos e omissões, que gosta mesmo de mim. E não se cansa. O meu Bruno Marco-Polo é daqueles homens que larga tudo por amor. Largou. Mudou de vida, mudou de país. Só não mudou de amigos. No dia em que um de nós puder dizer "Eu vou casar" ou "Eu vou ter um filho", o outro será certamente dos primeiros a saber. E isto é único. Já não se vê. E eu tive a sorte de poder viver assim. Tive a sorte de o encontrar. Tive a sorte maior de ele me guardar. Para sempre. O meu Bruno Marco-Polo faz hoje anos. Passará o dia entre tubos de ensaio. Mas estará feliz. Porque merece tanto que seria um crime se não acontecesse! Tanti auguri a te! Ti voglio bene!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Superiores interesses

Arranque-se e deite-se fora o Livro IV do Código Civil e tudo quanto é lei escorada num tal de superior interesse da criança.
Metam-se juízes e procuradores no sítio, que não têm nada que fazer o seu trabalho.
Técnicos da Segurança Social e Comissões de Protecção de Crianças e Jovens? Fogueira com eles!
A partir de hoje, cala o Estado, cala o Direito, cala a Democracia. E vivam os anarcas mais a "vida loca"! Cada um por si, olho por 500 euros, dente por dez minutos de tempo de antena.
Dá-me náuseas até às entranhas saber que há disto a vingar por aí!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pois... outra vez!

Ando há meses
(para não dizer anos, que dois já é plural e isto já os deixou para trás)
a deitar fora dignidade.
Daquela que um dia faz falta.
Quando acho que já me livrei dela toda,
raspadelas mais profundas descobrem
umas migalhas
que em meio tempo atiro ao rio.
Por isso, um dia, inevitavelmente, a dita fina-se.
Finou-se.
Pela hora do sol lembro sempre como me fará falta,
mas encomendo-me tempo
para cobiçar os cantos,
que lá devem crescer restinhos
para atirar às feras nos instantes da lua.
Mentira.
Ontem foi-se a última
essência.
Um sopro.
De princesa, mesmo.
Cinco estrelas:
10 de Novembro de 2007,
21 de Junho de 2008,
6 e 9 de Janeiro de 2009,
2 de Maio de 2009,
radicalmente 7 de Julho de 2009!!!
Sobrou-lhe o espaço.
Terreno em pousio.
Dia 1:
Passei a tarde no Spa,
rendida a tudo quanto foi esfoliante, óleo ou creme.
A dignidade de uma alma também se sustenta nisto!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Breve explicação para alguns cabelos brancos

"A imputação fazer-se-á-de através ..."

ou

"A imputação fazerá-se por meio de..."

1, 2, 3, som... 1, 2, escuto. Teste.

Lampe(eeeee)ggia... per favore :)
Depois de meses de negas muito subtis, era preciso fazer mais. Estava visto: não dava para permanecer naquilo mais tempo. Era impossível serem amigos e ponto. Não havia condições, mesmo. Então, ao sacramental massacre de dúvidas existenciais de como vai ser o futuro, de como ela teimava em tomar decisões sozinha, a pobre retorquiu, esgotada, que não decidia nada sozinha. Apenas decidia sem o consultar a ele. E ele não percebeu... mais uma vez. E frisou que são úteis opiniões distintas sobre cada item da vida. E que são imprescindíveis as opiniões da família, mas também as dos amigos, mas também a da cara metade. E ela acrescentou que concordava. Que questionava frequentemente a família, algumas vezes os melhores amigos e sempre, sempre, o homem da sua vida. Ele disse que tinha pressa e saiu. E calou-se. E sumiu. São preços!

Há amores assim

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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Asneira

Não é a primeira vez que assisto a semelhante cena. Vou até determinado local - um posto de gasolina, no caso -, compro uma lavagem de carro com tudo a que o amiguinho tem direito, carcacinha e interiores e tuditudi e depois entrego-o nas preciosas mãos daqueles mocinhos que já me conhecem e sabem qual é a essência que gosto mais que lá ponham... e vou sentar-me num banquinho a ver as modas. Até que se abeira um carro, o adulto condutor sai, deixa a porta aberta e o motor a trabalhar, vai comprar tabaco, uma revista, pede as chaves do WC, tira uma bica na automática, dá dois dedos de conversa... eu sei lá... enquanto o bébé permanece dentro do carro.
Isto acontece-me mais vezes do que seria suposto e muito mais vezes do que eu desejaria. Não consigo abstrair-me dois segundos de todos os perigos que espreitam. Armo-me, pois, invariavelmente, em parva, e estaco em frente ao vidro encostado ao bebé. Não arredo dali pé até vir o responsável. E, quando ele chega, eu ralho. Primeiro, eu não ralhava, só aconselhava. Depois, passei a advertir. Agora, ralho mesmo. Porque estou a ficar intolerante a esta asneira. Já não a suporto. E então ralho quase como se o filho fosse meu e não do que leva com o discurso. E pergunto se vai descansado sabendo dos tarados que para aí andam. E se pode imaginar em quanto tempo se rapta assim uma criança, com carro incluído e tudo. E ralho mesmo.
Hoje, ralhei tanto que nem piu se ouviu. E eu achei que podia ter aberto os olhos a alguém. Mas não. Quando finalmente abriu a boca, o pai em questão ordenou que me metesse na minha vida e arrancou a toda a força.
E eu fiquei a ralhar sozinha.

Vidas

Sobre a prostituição tenho uma posição muito definida. Entendo que é preciso dar alternativa a quem quer uma alternativa e é preciso respeitar quem escolheu livre, consciente, amadurecida, séria e espontaneamente aquele modo de vida. É isto.


Hoje vi uma prostituta de calças. Umas calças tão discretas que só lhe faltava serem vincadas e terem virola.

Mais adiante, vi uma prostituta a vender o corpo em cima de uma rotunda. A beira da estrada está batida.

Nada contra. Nada mais além de espanto.



Depois, vi uma prostituta grávida.
Mas isso, isso sim, está a fazer-me muita confusão.
Estou a sentir-me um pato bravo em versão menina. Tenho neste momento um telemóvel de cada rede.

Verdades e assim-assim


Comecei hoje uma difícil mas imprescindível carreira. A de dizer não.

domingo, 5 de julho de 2009

Sebastião


Foi há já algum tempo que acabei de ler este livro. Não o considerei excepcional, o que não me impede de dizer que gostei. Mas ainda hoje, quando me lembro do Sebastião, não consigo deixar de sentir um frio percorrer-me a ossatura toda... e de me benzer sem mexer as mãos.

De sonho. Tal qual.

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P.S. O som... porque as imagens, nem por isso.

sábado, 4 de julho de 2009

Wishlist

Travessuras

Porque esta travessura tem muito a minha cara é que eu acho que se um dia trabalhar no mesmo espaço do homem da minha vida a coisa é capaz de nos render pouco...

À cautela, vou incluir nos pré-requisitos a profissão. Portanto, que leia, porque ler faz bem. Mas que leia coisas que não me interessem muito, para não me dar a tentação de lhe ir cuscar os livros. E que trabalhe num sítio onde eu não possa de todo arranjar um cantinho para também me concentrar... Não vá apetecer-me, na fase da loucura, não desgrudar nem no período laboral. Tenho para mim que um cozinheiro reúne estas características: estou consciente da minha limitação visceral para compreender as artes da culinária e nunca me concentraria com o som de uma varinha.

Daqui: http://icanread.tumblr.com/

Coisas de homens

As mulheres cá de casa recomendaram ao homem pai que fosse com o kiko comprar-lhe uns sapatos.
Estranhámos a demora.
Acabam de chegar.
Trazem 3 pares de sapatilhas, uns binóculos, laranjas e cerejas!

bis

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Gaffes

Uma vez, logo nos primeiros meses de estágio, estava eu de escala e calhou-me um arguido acusado de tráfico de estupefacientes dentro do estabelecimento prisional. Deram-nos a privacidade de um banco nos claustros do Palácio da Justiça, seguidos de perto por dois agentes. Ouvi o relato com atenção e fiz uns tópicos para a defesa. Em escala, é assim. Depois soube que havia uma testemunha e optei por recomendar ao meu "cliente" que a testemunha devia confirmar a história e tal e tal. Levantou-se e foi falar com o colega, enquanto eu permaneci a organizar artigos e argumentos. E, de repente, concentrada como raro, só ouço a testemunha gritar, do lado de lá, viradinha para mim: "TÁ-SE, BACANA. TRANQUILO."
Agora, tenho uma aluna (que nunca vi mais morena) que decidiu que pode tratar-me por TU. E aquilo está a fazer-me muita confusão. Os mais conservadores e atiçados na arte da esparrela dirão que estou com tiques e que a criatura começa a imitar um dos criadores. Mentira. Quem me conhece minimamente sabe bem que sou a maior adepta do tu e da falta de formalidades. Mas há limites. Até para uma bacana, há limites.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Profissionalmente falando...

Estou a sentir-me uma equilibrista!

Questões em torno da palavrinha

Na faculdade, muitas vezes, ouvimos os alunos comentar que o professor "quer a palavrinha", que "se não dizemos exactamente a palavrinha a resposta já não está certa", que "não se percebe por que raio não se pode dizer por palavras nossas, sem usar a palavrinha", etc. E eu sempre achei que, salvo raríssimas excepções, tipo definições cujas palavrinhas são todas precisas e absolutamente consonantes com o que se quer definir, as palavrinhas não eram nada de crucial na vida de uma pessoa e que ninguém seria mais feliz por usar determinada palavrinha.
Até ontem.
Depende, meus caros, mesmo, da palavrinha, do contexto da palavrinha, de quem diz a palavrinha e de quem ouve/lê a palavrinha, muitas vezes, um momento feliz ou o prefácio de uma história que não nos parece que vá acabar lá muito bem. Porque, por exemplo, "ir a um sítio" é muito diferente de "ir para um sítio".

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Gestos

Que o Ministro fez um gesto. Ai o gesto do Ministro... Porque o Ministro... blá, blá, blá... Sem condições. Demissão. Ministro que faz gestos...
E agora, notícia de última hora, o Ministro demitiu-se e o Primeiro aceitou e mandou-o ir feliz à vidinha dele, acolchoadinho de palmadas kikas porque um gajo também se passa. E todo um cavalo de batalha. E o gesto... E eu já em pulgas para saber do gesto. Que não mostram o gesto. Já a imaginar os gestos todos possíveis.
Vai-se a ver e o Ministro, em homenagem ao final de ano lectivo, virou-se para os coleguinhas de turma e fez uma gracinha. Uma gracinha nele próprio. Bahhh... pá... país sem humor. Malta tão pouco reinadia...
Ainda se o homem vos tivesse mostrado o dedo do meio...
Não há direito...
Ooops... nem há Ministro!
Piscou :)

:)

Pisca. Pisca lá uma vez. Ou duas. Ou três. Pleeease. Vá lá, vá lá, vá lá. Pisca lá. Pisca. Piscaaaaa. Piiiiiscaaa. Pisca lá, por favor. Pisca, pisca, pisca.

Lupa

Estou com uma lupa, literalmente, a ler um exame de uma aluna. Impomos limite de páginas, rogamos que aprendam a ir ao essencial, mas estas almas insistem nos tratados sobre tudo o que leram e fixaram... pelo que o espaço é curto e a letra tende a... sumir-se!!!

É mesmo o silêncio.


São duas da manhã e qualquer exame, página do Diário da República, contestação inacabada, discurso sobre consciência fonológica ou organização de lista de tarefas é pretexto para me manter acordada. Porque dormir tem-se revelado uma grande fonte de preocupações. Não é bem dormir. É sonhar. E o que me irrita é que raramente me lembro de sonhos, mas, quando são estes, é vê-la acordar completamente a par de toda a trama.

E hoje, como ontem, como sempre que decido "tirar da cabeça o que não sai do coração", acho mesmo que o silêncio não é o melhor. Para mim, lamento, não é. Porque não é a minha reacção natural. É uma coisa que dá e passa e em que até eu só acredito nos primeiros momentos. Porque depois, qual dependência química, o silêncio dá-me dores, quase físicas, as putas. Isto está assim a ficar ferida, sem crosta. Cada hora em que não era suposto o silêncio e é ele que vence, afunda a ferida. Vai no osso. Por isso é que deve doer assim. E eu dava tudo para poder agora dizer que afinal é assim, mas também pode ser de outra maneira, e que dizer hoje x e amanhã z atesta pouco mais do que este estado de embaraço em que até eu fico quando me olho para dentro.

Eu não sei

o que é que custa mais: se é ficar em silêncio, se é saber que estão a ignorar aquilo que eu digo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

July's

"O ruído faz pouco bem, o bem faz pouco ruído."
S. Francisco de Sales