domingo, 30 de setembro de 2012

Acontece que


andamos em mudanças, cá por casa. Está a ficar tudo lindo de morrer, mas ainda falta colar uma tira do papel de parede do quarto (acabou-se a cola) e pensar bem na frase que se quer atrás do sofá da sala. A preciosa ajuda da nossa mais que exclusiva "Querida*" está a dar ao piqueno lar de Pequena R. um ar ainda mais de piqueno lar de Pequena R. Eu depois mostro**. Agora vou ali acartar coisas para o carro, que uma das grandes vantagens de se ter uns pais donos de uma moradia bem grande é haver sempre espaço para arrumar mais alguma coisa que agora não serve mas um dia ainda pode vir a ser útil. 

*Alusão pouco velada ao "Querido mudei a casa".
**Por agora, fica só um cheirinho.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Do lanche



A receita do bolo é a da Raquel, que por sua vez usa a do Ao sabor da cor. Hoje fiz tudo direitinho, mas às vezes adapto-a e também gosto muito. Uma das adaptações possíveis é a que publiquei aqui.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Maus dias

Sabem quando têm um dia mau?! Sabem das ganas que vos dão de atropelar tudo o que vos aparecer à frente?! Pronto. Hoje foi um dia desses. E estava capaz de engolir vivo o primeiro humano que decidisse pegar comigo. Tocaram-me à campainha. Atendi. O rapaz disse boa noite e começou a fazer-me perguntas sobre um determinado serviço. Respondi-lhe às primeiras duas. À terceira, perguntei-lhe se me ia fazer um interrogatório. Fui seca. Ele, impávido, respondeu-me que não, que só precisava de saber mais uma coisa. E pediu desculpa. Respondi. Disse boa noite e pousei o intercomunicador. Voltei a sentar-me à secretária e desatei num pranto. E lá fora começou a chover. Tenho o cabelo molhado do banho que tomei há pouco, estou de chinelos de quarto e em camisa de dormir. Levantei-me, vesti um casaco, peguei nas chaves de casa e saí porta fora. Quando alcancei a rua... nem sinal do rapaz. Mal disse-me o mau feitio e virei-me no sentido da porta. Antes de entrar, mais um olhar de relance e, no lote ao lado, a tocar uma por uma às campainhas, estava o rapaz. Entre nós, estava um jardim pequenino, que fica aqui em frente aos prédios. Gritei-lhe da minha entrada "Olhe... desculpe... O senhor desculpe. Fui muito indelicada consigo." Que não ouvia. Fez-me menção de aguardar. Voltou atrás. Não terá mais que a minha idade, está de chuva e anda a tocar às campainhas e a levar com o mau feitio das pessoas como eu. Com o cabelo a pingar-me a camisa de dormir e os chinelos a molharem-se-me de fora para dentro, pedi-lhe novamente desculpa. E ele disse-me que sabia o que era um mau dia. 

Acaba de acontecer-me exactamente isto. Continuo a sentir-me a pior do mundo. Uma fraca que descarrega o amargo de um dia mau no primeiro ser que lhe aparece a jeito. Uma tristeza.

Fica comigo

Fica comigo. Daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. Fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. ... Há alturas, imagina, em que penso que não existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, ...
- O que se passa contigo?
e não sei explicar, é impossível explicar porque não se passa nada de concreto, ..., podia responder que uma coisa vaga e todavia não se trata de uma coisa vaga, trata-se de uma coisa real, verdadeira, uma sede não de água, de não sei quê, uma aflição de perda embora, que eu saiba, não tenha perdido nada, parece que está tudo como deve ser à minha volta e não está, não compreendo o que falta mas não está, tem paciência ajuda-me, fica comigo...

Fica comigo, Crónica de António Lobo Antunes

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Dias em que me dava jeito ter alguém a morar cá em casa

Dias como hoje, em que são 20h49m, acabei de chegar e ainda não comecei a fazer o jantar. 

Coisas que só a mim...

O rapaz a quem pediram para trazer a minha marca de pensos diários do armazém ser... meu aluno.

Verdades e assim assim

Nasce-me todos os dias no peito uma frase que continuo a trazer entalada na garganta.

...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Bem mais que um compromisso

Passei quase quatro anos com um clip branco sempre atrás de mim, ou no estojo, ou na carteira, porque ele mo tinha dado, em forma de anel (dobrou-o e até lhe fez um feitio em cima e tudo), num determinado dia. Se me rendi dessa maneira a um clip, que só não usava porque, pronto... enfim... com um anel assim levavam-me ao altar. Bem... dependendo de quem o oferecesse, claro, que não há anel que faça as vezes de clic. Mas lá que é muito Pequena R., lá isso é.
Via Simplesmente Branco, pois claro.

A simpatia oriental

Soube ontem, ao fim da tarde, que devia estar hoje, ao fim da manhã, disponível para uma conversa com um professor japonês que anda a fazer um tour mundial de investigação sobre um tema em que, alegadamente, serei especialista. Vai daí, o chefe deu o meu nome e não havia como fugir. Lá fui, sem saber bem o que me esperava, mas certinha de como o meu inglês andava pelas ruas da amargura. Quando vi que o professor se fazia acompanhar de uma outra pessoa que faria a tradução das perguntas dele para português e das minhas respostas para japonês, respirei de alívio. A conversa durou uma hora, correu muito bem. Expliquei tudo muito explicadinho e ele olhava para mim como se estivesse a perceber tudo. De cada vez que a bola passava para o lado dele, enquanto fazia as perguntas, eu olhava-o com semelhante deslumbre ao que dizem abater-se sobre os burros diante dos palácios. No fim das contas, dissemo-nos arigato e ele pegou num embrulho e deu-mo em mãos. Umas trufas artesanais de caramelo, com muito bom ar, prometiam, dentro de uma caixinha toda bonita. E pronto. Até fiquei sem jeito.

Inventemos

Tenho um vestido igual a este há uns dois anos. Uma pechincha, comprada online, que se transformou numa paixão. Adoro-o. É super confortável, fresquinho, largo, enfim. Decidi mandar fazer um vestido com o mesmo feitio, mas de Inverno. Ah... e com um debruo em pompons mínimos. Basicamente, como há uns anos que não me dava para mandar fazer roupa e inventar coisas para a modista produzir, andava a apetecer-me tirar a barriga de misérias. A ver como fica.

Pequena R. sugere ao leitor

Sou um bocado niquenta com "os corantes das unhas", como já devem ter reparado. A bem dizer, prefiro andar com as unhas sem verniz do que com um verniz todo lascado ou baço ou seja o que for. Às vezes, lá acontece, mas sempre porque não pude mesmo, nem tarde da noite, resolver a questão. Acontece que, como boa parte das pessoas que têm mais que fazer que orientar o verniz das unhas, também eu, quase sempre, consigo virar-me para essa tarefa só tarde e às más horas. Vai daí que o que mais acontecia era acordar no dia seguinte com pés e mãos cheios de "carimbos" dos lençóis, uma coisa pavorosa, verdadeiro medo ao susto. Até ao dia. Já tinha experimentado alguns, já tinha passado pela suprema provação de enfiar as mãos naquela maquineta de luz lilás e até já me tinham congelado os dedos com um spray secante que anda na berra. Nada se compara a isto. Não conheço a marca e sinceramente nem sei como podem comprar a coisa. Eu comprei na esteticista onde às vezes vou, porque mais que pintar as unhas já são conhecimentos muito específicos e carecidos de instrumentos que não possuo. É mesmo fantástico. Um frasquinho dá para imenso tempo. Basta uma camada por cima do verniz e, para além de, em menos de cinco minutos, se ter o verniz seco, as unhas ficam com uma camada de brilho intenso e a cor dura muito mais tempo sem começar a quebrar nos cantinhos e tal. Estou rendida. Sobretudo agora, que passamos a andar sempre de sapatos fechados e, daqui a nada, meias, é importante garantir que o verniz dos pés está bem e não se assemelha a uma borratada em cada unha. Se virem por aí à venda este frasquinho preto, aproveitem. Vão por mim, que eu não vos engano.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Alemão

Gostei. Sei dizer como me chamo e de onde venho. Se estiver a ler. Agora, por exemplo, sem papel à frente, acho que até já me esqueci. Quando saí, encontrei o meu orientador de doutoramento. Perguntou-me que autor estava a pensar traduzir primeiro. É um crente, vá. A coisa promete. Ai, ai.

domingo, 23 de setembro de 2012

Mini me... aujourd'hui :)

:)))))


Choveu. Está vento. Ainda faz calor. Mas isto vai lá. Já começou o Outono. E tal. Ah. Tão bom.

sábado, 22 de setembro de 2012

Vou ali ao teatro e já volto



As Mulheres Não Percebem…
Frederico Pombares, Henrique Dias e Roberto Pereira, autoria; José Pedro Gomes, encenação; Aldo Lima, André Nunes e Rui Unas, interpretação.
O que se fica a saber sobre os homens quando três trintões, amigos de longa data, se vêem forçados a passar cerca de uma hora juntos, sozinhos, sem distrações e a falar uns com os outros?

Depois de um dia inteiro de barrela geral a uma casa que não via um pano de chão há dois anos, altura em que "deixámos de lá entrar" para evitar pilhas de nervos por andarem a escavar a estrada em frente (e sim... entre estrada, rotundas, ciclovia e cenas, foram dois anos), acompanhada por mais três pares de braços... absolutamente exausta, mas com a boa sensação do dever cumprido e a certeza de que a casa onde gostamos de passar alguns fins de semana no Inverno está novamente habitável, já com tudo lavadinho (das 22 máquinas de roupa e várias idas à lavandaria ao longo das últimas duas semanas) e no sítio, camas feitas e mantinhas no sofá, vou ali ao teatro com gente amiga e já volto. 

Foi

perfeito! 

Houve abraços apertados, beijos demorados, muitas memórias, flores, fotografias e o meu fado preferido cantado olhos nos olhos. Depois fomos ver  como descia manso o rio e prometer que vamos repetir estas noites mais vezes. Reencontrar tantas daquelas minhas pessoas foi... perfeito!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ser mulher

A Marta Gautier diz que é uma canseira ser mulher. Um desespero, até. Esta montanha russa permanente em que vivemos não dá descanso e mói uma pessoa. Concordo muito com ela. Não trocava ser mulher por ser homem, porque gosto muito de ser mulher, mas reconheço que não somos lineares e, portanto, entender-nos deve ser coisa que mate a cabeça a quem se proponha abraçar a tarefa com ritmo. Hoje, por exemplo, acordei a achar-me a caganeta de um cão zarolho e coxo. Mas depois fui tratar de mim, cheguei a casa e tinha tudo limpinho pela minha Dona G., que, abençoada, voltou de férias, recebi um mail que me encheu o coração e agora, à medida que a noite se aproxima e me lembro do jantar que me espera, da companhia que me espera, das saudades que vou matar, do significado imenso que tem este jantar, estarmos juntos tanto tempo depois, meus amigos, é impossível não me sentir feliz. Vou ali ver se acabo de ler um trabalho e pensar no modelito e amanhã dou notícias.

Verdades e assim assim


Huuummm

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Segundas, terceiras, quartas, quintas e muitas outras...

Quantas chances merece uma história?! Depende da história?! Contem-me lá onde se estuda isso.

And the winner is...

Um prémio a quem descobrir a música, em loop, que me tem acompanhado esta noite. Uma pista: quem a canta é a Ivete. Em loop, pessoas. Em loop. 

Parou tudo!

Hoje tive ao meu lado, na aula de yoga, um colega que não é um colega... é um sentido obrigatório na direcção daquilo a que as pessoas chamam o mau caminho. Ai.

Pontos de vista

Há quem tenha avançado a hipótese de sermos todos uma cambada de inúteis porque só isso permitiria que num dia, a meio da semana, por volta das onze da manhã, se conseguisse marcar um almoço de amigos para o meio dia e meio. Continuo a defender que não se trata de sermos inúteis, mas de sabermos todos dar valor a uma das melhores coisas que esta vida sem horários muito rígidos nos dá. A outra face da moeda é muito penosa, todos o sabemos. Ninguém com um emprego das nove às cinco consegue imaginar a angústia que é ter sempre o trabalho ali ao pé, nunca dar para o fechar numa gaveta, bater com a porta e esquecê-lo, perceber que ele não tem fim. Um investigador, sobretudo quando tem uma tese em mãos, não tem férias propriamente. Tem momentos em que fisicamente se ausenta da secretária. Mas o peso da responsabilidade está-nos colado à pele, por dentro. Come connosco, toma banho connosco, vai connosco à casa de banho, dorme connosco, está no cinema connosco, na praia connosco, às segundas, às terças, às quartas, às quintas, às sextas, aos sábados e aos domingos, as vinte e quatro horas dos dias. E isto é muito mau. Mas depois, apesar de tudo, ter a liberdade de estar numa vida profissional que permite reunir os amigos à pressa para um almocinho, isso, meus caros, é uma bolha de oxigénio emocional que não tem preço. E, nos dias melhores, reconhecer que se está a pensar, a ter uma ideia... ver uma ideia a nascer, isso... isso também vale ouro. São poucos os dias, mas são os melhores. E dão balanço para os outros todos, cheios de hesitações, medos e certezas de que se preferia bem mais ser outra coisa qualquer. Ando na fase em que lamento que o mundo, para ganhar um fraco remedeio de jurista, tenha perdido uma inexcedível esteticista. Fez-me bem este almoço. 

;)


Some days are better than others!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Do passado. Do presente. Do futuro.

Já reli este post da Kitty Fane uma série de vezes. Continuo sem perceber como me sinto ao lê-lo: se uma valente, se um pano de chão.

Gosto de

Eu e as ofertas pelo telefone

É sabida a minha dificuldade em lidar com contactos telefónicos para sondagens, ofertas, vendas e o diabo a sete. Parto para cada um desses telefonemas com muitas pedras na mão e não vale a pena mascarar esta verdade. Acabam de me ligar para me oferecer TODOS os canais do Meo. A bem dizer, pela quantidade de canais que me ofereceriam, para bem ser havia de me despedir de qualquer actividade profissional e alapar-me no sofá uns seis meses só para ficar mais ou menos a par da programação de tanta oferta. O menino explicou tudo, com aquelas frases feitas que eu acho que eles têm escritas num papel à sua frente e repetem a toda a gente por chapa cinco. Quando acabou, agradeci muito a amabilidade da oferta, mas, já agora, gostava que me informasse sobre a fidelização que a minha aceitação operaria no meu contrato com a PT. E a resposta veio pronta: 24 meses. Agradeci mais uma vez a amabilidade do contacto (hoje estou virada para o meu lado simpático, pronto), que, porém, não seria frutífero, uma vez que não pretendo aderir a nada que implique qualquer tipo de fidelização. Baralhei-o, coitado. Porque então perguntou-me da satisfação e eu respondi que era muita. E, incrédulo, perguntou-me ainda, como, sendo muita a satisfação, me recusava assim a aceitar a gentil oferta que me depositavam nas mãos, ou melhor, na box, sem que para tanto eu tivesse de mexer uma palha. Ajeitei-me na cadeira e expliquei-lhe com muita calma que o facto de eu estar satisfeita não quer dizer que eu queira ser obrigada a ficar com eles para sempre. E mais. Que se há coisa que eu aprecio é a liberdade, pelo que projectos de fidelização a dois anos, salvo com pessoas por quem o meu coração acelere, é uma cena que me causa uma certa espécie. E ainda mais. Que não gosto que me obriguem a nada. Portanto, eu não lhes pedi porra de canais nenhuns para além dos que contratei. Se me quiserem dar mais alguns, estão à vontade, mas é dar por lhes apetecer, não é dar a mascarar um novo contrato. O menino tentava convencer-me ainda e eu estava há tempo demais a ser tolerante. Disse-lhe que já faço muitas coisas obrigada, como pagar impostos e outras peculiaridades semelhantes da vida adulta, ainda agora era o que mais me faltava ser obrigada a gramar com um contrato de televisão dois anos sem poder mudar para outro que me apareça e seja mais vantajoso. O menino não entendeu. E eu perguntei-lhe: "Tem aí alguma coisa para me dar sem me obrigar a fazer nada?!" E ele, meio irritado, disse-me que não. Despedi-me com um "Então também não quero nada seu. Passe bem e até à próxima." e vim à minha vida. Ele há com cada uma...

As minhas amigas têm umas piadas muito giras...

Estávamos a falar de televisões, uma vez que preciso de trocar a de cá de casa que, de tão grande que é, quase preciso de ver as coisas com uma lupa. Vai daí que a pessoa em causa me sugere uma que está com uma mega promoção. O preço é apetecível, mas respondo-lhe que quero uma com leitor de dvd. A pessoa em causa avança, então, com o argumento de a de cá de casa ser pequena e mimimi. E eu remato a discussão com um peremptório "Eu sei, mas, chegado a trocar, que troque por uma já com tudo o que quero...". Juro que estava a falar de televisões... não de pessoas. Acontece que a resposta não tardou. E sentenciou que "Esse é o problema das nossas vidas...". 

A Rosa

A Rosa trabalhou uns anos em casa dos meus pais. Foi a melhor doméstica que algum dia por lá passou (a nossa F. não lê este blog...) e tivemos todos muita pena quando ela, por razões familiares, teve de mudar de país. A Rosa é mesmo boa no que faz. E há para isso uma razão muito, muito simples. A Rosa não é doméstica por não ter conseguido ser outra coisa, é-o porque gosta mesmo daquilo. A Rosa aprecia limpar e arrumar como poucas pessoas. É organizada, é determinada, teimosa, até, mas sobretudo é dedicada à causa, fá-la com gosto. Tomava a casa do outro como sua e tratava-a com o mesmo brio. Cuidava dos filhos do outro como se fossem seus e dedicava-lhes muitas atenções. A Rosa, nunca me esqueço disto, desmontava os rodapés de vez em quando para aspirar e lavar o pó que se acumulava por lá, arrumava as coisas de dentro dos armários da cozinha por cores e tamanhos, via se alguma lâmpada se fundia, apanhava as folhas secas do jardim e da calçada, dava banho aos cães, passava a ferro muito depressa, mantinha as plantas de casa bonitas, fazia as camas impecavelmente e, às vezes, de manhã ou ao final do dia, surpreendia com um bolo. Inesperado e sem razões. Quando hoje, pela manhã cedo, me apeteceu pôr um bolo no forno só porque sim e a casa se perfumou do cheiro bom que vinha dali, não pude evitar lembrar-me da Rosa. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Tenho uma má relação com certas datas...

Exercícios de paciência

Dizem que devemos fazê-los. Eu, hoje à tarde, por exemplo, fiz um. Mesmo a sério. Não disse asneiras nenhumas, não bati em ninguém, não dei murros na mesa, não atirei a cadeira contra nenhum vidro, não  mandei ninguém calar-se, não disse nenhuma vez duhhh a seguir a cada umas das quinhentas e setenta e nove vezes em que me pediram para explicar o mesmo e ficaram a olhar para mim como se eu comunicasse em húngaro, não me descabelei, enfim... E apeteceu-me fazer isso tudo. E não fiz. Optei por exercitar-me na arte da paciência.

C ou não C, eis a questão

Estava a gostar de o ler. Até começar a opinar sobre os contraCtos.

Do tempo

Dizem que vai estar calor até ao fim de Outubro. Acho tão mal. Tanto mais que já ando a ter de me controlar muito para não começar com as decorações de Natal. Só não o faço porque ainda há coisas muitas de que gosto até lá e não se devem queimar etapas. Ele é o lanche da República, ele há-de ser voltar a Tormes, ele é dar uma volta na decoração cá de casa, ele é o aniversário do pai e tantas outras minhas pessoas, ele é o São Martinho, ele é Viena, ele é a altura em que verdadeiramente entro num 31, ele é voltar à capital, ir ali ao país ao lado buscar livros, começar as minhas aulinhas e aguardar boas surpresas. Tudo a saber bem melhor com uma aragem fresquinha, que já não se pode com este calor.

Coisas de um doutoramento #1

Embora, por razões que não vêm ao caso, tenha, há cerca de um ano, tido que ler meia dúzia de obras essenciais para apresentar, em projecto, mais ou menos a ideia que me proponho desenvolver na tese, a verdade é que, muito diferentemente da maioria das pessoas, eu não consigo ler só por ler. Ler e ir fazendo fichas de leitura, por exemplo. Vai acontecendo, com uns artigos mais pequeninos ou meia dúzia de páginas-chave para me orientarem no caminho, mas, regra geral, para sentir que estou, verdadeiramente, a pegar o touro pelos cornos, preciso de ir lendo e escrevendo em simultâneo. São manias. E manias que, a bem dizer, consomem a serenidade a uma pessoa. Porque arranjar tempo e disponibilidade intelectual para iniciar a sério uma empreitada de leitura e escrita é ainda mais complicado que ir matando as "horas vagas" com leituras de enquadramento. Isto para dizer que tenho alguns pendentes a que urge pôr termo. Coisas de vinte ou trinta páginas que nem sequer têm directamente a ver com o tema da tese. E que, depois disso, tenho mesmo de começar a escrever. Antes, porém, e sabendo que ainda há muito chão cá por casa para preencher (estantes, já nem por isso), mantenho esta indelicadeza atroz para comigo mesma de recolher bibliografia como se não houvesse amanhã ou conseguisse apreender os conteúdos por mera suspensão da mão direita, produzindo o som ooooommm, por cima das páginas. Socorro. Não sei para que lado me hei-de virar. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Devoluções

Ao telefone com a mãe

Eu: E mimimi e tatata e pronto... Beijinhos. Beijinhos também para o pai.
Mãe (a falar para o pai, que estava ao lado dela): Queres falar com ela?
Pai (amuado porque tínhamos ralhado com ele por estar a fazer uma barulheira enquanto punha os pratos na mesa para eles os dois): Não.
Mãe: Ouviste? Ele não quer falar. 
Eu: Então diz-lhe só que eu lhe estou a mandar beijinhos.
Mãe: Ela está a mandar-te beijinhos.
Pai: Diz que eu lhos devolvo.
Mãe (incrédula): Devolves-lhe os beijinhos que ela te está a mandar?!
Pai: Não. Que disparate. Eu fico com os dela, mas na volta do correio mando-lhe dos meus.
Mãe: Ouviste?
Eu: Ouvi. Vocês são tão estranhos...

Onde está a R.?!

Ah ah... bem me parecia!!!

Diz que é uma artéria do coração. Uma triste de uma artéria do coração que devia ser direitinha e tem uma curva. Bem me parecia que o meu único problema havia de ser o coração empenado. 

E é assim... os exames continuam a bom ritmo, sendo que, até ao momento, a única coisa que acusa não estar operacional é mesmo aqui o nosso amigo. Sonso, pá. Não lhe bastava andar com a alma às cabeçadas, agora também quer chamar a atenção entortando-me as artérias. 

É para verem o nível das nossas discussões

A propósito de um convite para dia 5 de Outubro, estou há duas horas a discutir, por mail (vamos trabalhando nos entretantos... calma), com o melhor melhor amigo, se ele ficaria melhor como Rei ou como Presidente da República vitalício. 


Garanto-vos que há quem nos ache pessoas adultas!

Para ser feliz

ajuda estar vivo, ter mãe e pai juntinho, um mano muito adorado, uma avó matriarca, amigos que dão abracinhos, amigas que não se cansam de ouvir, a profissão que se escolheu, uma casa em forma de ninho, os sentidos apurados, um corpo que mexe, uma alma que voa e sonhos que crescem.

domingo, 16 de setembro de 2012

Pois...

:)

Eu: Andas a limpar o carro?!
Mano (de pronto e pano do pó na mão): É. Parece que sim.
Eu: As caloiras... Ai as caloiras... Vai ser um assolhar das saias de roda de ti, rapaz...
Mano: Já se sabe... nessas coisas é sempre melhor um gajo não contar só com a carinha.

ahahahahahahahahah :)

O mano e as devidas distâncias

A mãe já se tinha levantado da mesa do pequeno almoço. O pai continuava lá, enquanto ouvia as novidades na Sic Notícias. Eu e o mano também já tínhamos acabado e estava cada um num sofá, a consumir os restinhos de moleza da noite. Vai daí, levanto-me do meu sofá e começo a dar xis e beijinhos e miminhos ao mano, enquanto repito "és a minha pessoínha tão preferida", "gostiiiiiii", "quem é o mano mais foffi do mundo todo inteiro?!", "oh coisa mais kika jolie da sua mana", etc, etc, etc. Ele correspondia, mas com muita parcimónia. A mãe dizia que eu era chata. O pai... tirava fotografias com o telemóvel (eu sei... não somos normais). Até que o mano, entre um xii do mais apertadinho que há e outro, suspira enfastiado. E eu pergunto se os amigos não têm assim manas como eu. E ele diz que não. Diz que os amigos são pessoas com vidas sossegadas. Pergunto-lhe se também quer uma vida sossegada. Garante-me que sim. E que, para começar, podemos começar a cumprimentar-nos só com um aperto de mão. 

Levantei-me e vim fazer as camas. Está ali a lanzoar que era mentira, que sou a muito mais preferida e especial. Eu finjo que não acredito. E aproveito para o ir explorando mais um bocado em matéria de mimo. E é mais um domingo, minha gente.

Dou um doce

Dou um doce a quem me explicar este nó no peito que me mói os Setembros e esta lágrima arredia que, teimosamente, continua sempre a visitar-me neste dia.

sábado, 15 de setembro de 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Verdades e assim assim

Sou uma sonhadora. Sonho imenso. E alto. Sonhos coisas improváveis e algumas até impossíveis. Sonho tanto que sonho livre. Sonho sem mas e sem ses. Sonho sem passado, sem presente e sem futuro. Sonho como se o que sonho não tivesse um tempo certo para acontecer. E não tem. 

Pequena R. desafia o leitor

Complete a frase:

Se o Por aqui passei eu não se chamasse Por aqui passei eu, podia bem chamar-se...

Setembro

Mixed feelings, é o que é!

Poemário essencial


A felicidade está sempre em outro lugar,
aquilo que chamamos felicidade, uma música,
uma ventania, um campo de milho
ao longo da estrada, os meus filhos
rodeando-nos, as tuas gargalhadas,
a roupa desarrumada, as janelas abertas.
Escrever sobre o assunto não o faz esquecer;

pelo contrário - ele vai e volta, como tudo.
Outros assuntos: um homem e, sendo assim, 
uma mulher, deviam aprender a dançar,
por exemplo; deviam recolher a água da chuva;
deviam viver em outro país, entre
estranhos; deviam coleccionar fotografias
e guardá-las para os tempos que hão-de vir.

O tempo que há-de vir é a substância
do amor, tal como a poesia devia falar
da semana que vem, das penumbras,
dos reencontros depois de muitos anos,
da paisagem que atravessa os sonhos, 
antes que alguém pergunte a meio da noite:
Que acontecerá depois disto? Somos dois estranhos?

Mas não se devem fazer muitas perguntas,
tal como não se deve deixar o coração à solta,
destruindo a nossa vida. Os poetas
mencionam muitas vezes o coração,
mas muitos deles, solenes, nunca ouviram
esse ruído da areia nos desertos - 
e, como nós, afinal, temem o amor vulgar.

Mas são meticulosos, os poetas, esperam
o reconhecimento por uma rima fatal,
lânguida, cheia de coisas baratas que se encontram
nos dicionários. E tem o seu efeito no verso,
é preciso reconhecer, desviando-nos da pequena
vulgaridade e dos negócios de família.
Mas eu talvez possa falar do amor vulgar:

faço o jantar quando chegas a casa, 
arrumo os livros, despejo os cinzeiros,
tratarei das vacinas, choro se for preciso
- mas nunca choro. Os poetas sensíveis
choram, sim, e procuram o nome das árvores,
as mais raras, o amor enche livros vastíssimos,
intenso, como um mundo que começa.

Que acontecerá depois disto? Fazes então
a pergunta e não sabes a resposta - esse
é o amor vulgar, como um retrato de todos nós,
uma espécie de comoção. Mas não fazes
versos ao entardecer e ocupamos a noite em tarefas
mais desprezíveis: ouves a minha respiração, 
ouço a tua, pensamos em sexo e em trovoadas,

culpamo-nos de pequenas coisas, tarefas
irrisórias, nada de elevado. Na verdade,
o amor vulgar ama essa despreocupação, ou
o desinteresse pela metafísica, pelas epopeias
interiores, pela grandiosidade de estilo, o brilho
das pérolas no fundo do mar - como nós, rindo
para suportar a insónia, escutando os carros

que passam na estrada, o vento empurrando o lixo
durante a madrugada, quando vem a primeira
luz, a mais fria. Que acontecerá depois disto?
Quase nada. Partes de repente e corro pela rua,
perseguindo o resto do teu perfume, arrependid(a).
Fico como uma figura de romance, desses vulgares,
ensoanad(a) no meio de uma estação vazia,

olhando para um comboio que partiu, e choraria
se fosse preciso - mas não choro, nunca choro.
As lágrimas são frequentemente uma armadilha,
um de nós sofre agora, depois o outro, 
o amor é um assunto igual em toda a parte,
frequentemente nos esquecemos de que há coisas
mais importantes para falarmos desse enigma:

o que acontecerá depois disto? Somos dois estranhos?
Digo muitas vezes o teu nome sem saber que
também dizes o meu. E não sabemos, nunca saberemos 
o que é o amor, somos gente vulgar, evitamos lágrimas
e metafísica, jantamos tarde, arrumamos a cozinha,
temos medo; depois tu partes, eu persigo 
os teus passos quando te afastas na minha direcção.


Francisco José Viegas

Novidades do yoga

Porque ontem tive um compromisso profissional à hora da aula, tive de faltar. Vai daí, e para compensar, hoje comecei o meu dia no yoga. Pela fresca, lá me levantei, engoli um iogurte e pus pernas ao caminho. Esta mudança de horário fez com que, hoje, tenha tido aula com a malta da terceira idade. A bem dizer, quando lá cheguei pensei "Ai, pequena R., que isto hoje, com a brigada do reumático, vai ser tão canja! Até vais achar que subiste um nível em cada exercício, pessoa.". Enganei-me. Enganei-me muito. Se é verdade que ando a provocar enorme admiração na professora por, sem nunca ter praticado yoga e sendo tão pouco fã de exercício, estar com uma flexibilidade quase irrepreensível (é... faço a espargata, chego com as mãos aos pés mantendo as pernas esticadinhas e, sem esforço, ainda consigo tocar com o pé na cabeça dobrando a perna), foi preciso ir para o yoga para perceber como sou uma desequilibrada de meter pena. Eu e o equilíbrio temos, por assim dizer, uma relação que anda aos caídos. Manter-me direita só num pé, aguentar um minuto esticadinha e sem os calcanhares no chão... tudo coisas que não me assistem. A professora diz que é uma questão de treino. Eu tenho um certo receio de começar a andar aos trambolhões cá por casa por tentar fazer a minha vida equilibrada, à vez, só numa perna. Vai daí que hoje, bem, hoje vim ainda mais enfastiada com esta minha limitação. A brigada do reumático toda equilibrada só numa perna, a agarrar o tornozelo com ambas as mãos atrás das costas e ali firme e hirta como uma barra de ferro e eu numa dança de capoeira mal amanhada. Não há condições. 

Da profissão


Step by step... we go, girl :)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Enche-me de orgulho!

O mano trabalhou durante as férias com o pai. No duro. O pai diz que um veterinário tem de saber borrar a bota. E que ninguém que não saiba fazer consegue mandar muito bem. É assim o pai. É assim o mano. Por isso é que amanhã, por não ter aulas, vai cedinho até casa. O pai está enrascado. Precisa de uma ajudinha. Acho o mano a última bolacha do pacote, pronto. Sou fã do garoto. Adoro que vista a bata ou o fato de macaco com o mesmo entusiasmo com que veste o fato e põe a gravata. Que conte uma ninhada de animais ou saiba o preço da farinha ou do feno com o mesmo empenho com que estuda exognósia. Amo de paixão que não seja só um menino, que o tempo o tenha transformado neste homem. E pronto. É assim a vida.

Haja humor

O lema "relaxa que tudo encaixa" serve, de facto, para muita coisa na vida. 

Isto é de ver. Mesmo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Casas - continuação

Gosto de casas espalhadinhas. Não gosto de escadas.

Eu e as lojas grandes*

Sou uma pessoa limitada e que gosta de mimo. Vai daí, não me entendo em lojas grandes. Isto tudo para dizer-vos que fui à Primark. E até gostei de umas quantas coisas, mas era muita gente, a caixa a ditar números baralha-me o cérebro e o espírito "cada um por si" assusta-me. Tinha umas blusas giras. Vão lá. Não trouxe nada, contrariando a verdade absoluta que corre entre todas as minhas amigas e que diz que é impossível ir à Primark e vir sem nada. Serei doente?! Gosto de lojas com poucas coisas, gosto de lojas específicas, gosto de lojas em que há meia dúzia de peças escolhidas a dedo e só um exemplar de cada tamanho, ou de lojas com coisas muito handmade. Claro que vou aos básicos da Zara e resisto com dificuldade a uma boa pechincha, mas sigo muito o lema de que o que é barato é caro e o que é bom custa dinheiro. Não gosto de irmandades e prefiro ter poucas coisas mas ser absolutamente apaixonada por cada uma delas. Nunca comprei nada na C&A, nem na H&M, por exemplo. Até tenho pena, mas não sei comprar nesses sítios. Sou mesmo limitada para essa arte, pá. Uma vez fui à Feira com a minha mãe e não resisti a uma banca de ciganos. Comprei um casaco de malha. Uma coisa básica, mas de uma cor que me fazia falta, pronto. Cheguei a casa e é que me apercebi que aquilo tinha uns furitos e os botões todos a cair. Esteve o meu pai parte de uma tarde de domingo a reparar a peça e acho que se a vesti duas vezes foi o muito. Vou aos chineses e juro que até gostava de conseguir comprar alguma coisa, mas não consigo, salvo elásticos para o cabelo ou coisas semelhantes. Na candonga, há uns anos, apaixonei-me por um saco que era uma imitação perfeita de uns de uma marca de que gostava muito na altura. Comprei-o, por meia dúzia de trocos. Nunca consegui levá-lo à rua. Tenho uma pena imensa, que a sério que não faço isto por ser pedante, é mesmo porque não consigo. Prefiro continuar com as minhas duas únicas camisas brancas, a saber quando e onde as comprei, a recordar exactamente a ocasião em que me rendi a cada vestido ou par de sapatos e a usar as carteiras que não imitam nada, podendo ser CH ou feitas à mão por alguma colega da minha mãe. Gosto das lojas onde me conhecem e sabem o que aprecio. Ou daquelas em que entro e, a vagar, me mostram uma solução, e depois outra, e ainda outra, e outra. De preferência, de lojas em que conheça as empregadas pelo nome. Não digo que não vá comprar nada na Primark. Como vos digo, tem coisas giras e hei-de voltar, a ver se me ambiento à loja e tudo começa a parecer-me menos impessoal. Mas mega espaços abafam-me, por curioso. Sou estranha, eu sei.

*Estou tão cansada de ter um blog com preocupações mais sérias. Este não é, nos últimos tempos, o meu oásis poraquipasseieu.

À deriva

O anúncio recente de que poderá haver uma atenuação nas medidas de austeridade apresentadas ontem não me sossega. Exaspera-me, na realidade. Primeiro, porque acho que não vai acontecer. Dizê-las ontem em voz alta corresponde, mais ou menos, ao primeiro "não" convicto de uns pais de pedinchões. Custa, mas é para manter. Custa, mas, depois de dado o primeiro passo, todo o caminho parece menos penoso. Depois, porque, pela primeira vez, desiludi-me com o Vítor Gaspar himself. Tenho-o defendido e gosto dele. Acho que não se cercou dos melhores, mas concedo na dificuldade que é garantirmos que toda uma equipa se rege pelos mesmos padrões de exigência e escrúpulo que nós. Não sou fã de grandes equipas, salvo na solidariedade. No poder, sou tudo menos fã de equipas. O facto de existir um poleiro assume demasiado fascínio aos olhos dos galos para que possamos confiar na sua rectidão imperturbável. Na de todos, pelo menos. Tornei-me, com o passar dos anos, mais austera na avaliação do outro. E a razão é simples. Fui conhecendo muitas aliciantes pelo caminho e descobrindo como custa, muitas vezes, resistir-lhes. Ora, hoje, o meu Ministro das Finanças desiludiu-me. Deu-me a saber que lhe saem pela boca fora coisas em que pensou pouco pela sua cabeça. E eu não confio nas outras cabeças. E, sendo assim, pensar pouco nas coisas é grave. Vender-nos os discursos ao preço a que os compra, é irresponsável. E, numa altura destas, tudo aquilo que não pode acontecer é sermos governados por irresponsáveis.

É que faz mal...

Indignados report

A Maçã está imparável.

Oi?!


As últimas declarações de Durão Barroso indicam como caminho para a Europa a criação de uma Federação de Estados-Nação. Já lá vão sete anos desde que tive de pensar nisso. Na altura, escrevi que não era ainda tempo para tal. Sete anos depois, honestamente, acho que é ainda menos. Mas enfim. Isso sou eu que digo. Vale o que vale.

As autoridades nacionais presentes nos processos de decisão europeus, chamadas a encontrar consensos duráveis, parecem-nos ainda não suficientemente convictas de que a melhor solução será avançar para o Federalismo, quando as divergências sociais, culturais, políticas e jurídicas são ainda muito acentuadas entre os vários Estados – membros. Não está ainda reunida uma base de legitimação democrática tão sólida que permita pensar nisso. (Pequena R., Maio de 2005, contexto académico.)

Indignados report

Mais um passo. E assim se vai.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Tudo para vos ver felizes #2



Capelinhos, Faial, Açores

Março de 2010 (mas o cabelo está na mesma... vá, com mais brancos ;))

Tudo para vos ver felizes #1

De cada vez que olho para esta fotografia, lembro-me que acabou por descobrir-se que estas duas pessoas nunca se tinham visto na vida antes deste momento e não mais voltaram a encontrar-se depois dele. Garantem ambos que não trocaram uma única palavra. A euforia pelo fim da última grande guerra deu lugar ao beijo. E as palavras... não foram precisas. Sempre que me demoro a pensar na história real da fotografia, lembro-me ainda de uma das cenas finais do filme Notting Hill, em que o amigo mais desastrado de Will, inebriado pelo final feliz do par romântico da história, agarra com ambas as mãos a desconhecida que está ao seu lado e lhe dá um beijo. E não me fico por aqui. Como em quase tudo o que me diz alguma coisa, tenho momentos de revisitação emocional desta fotografia. A tempos, lembro-me dela. Hoje, situo-a naquele patamar das explicações que não se dão, sobre as coisas mais mágicas que nos acontecem na vida, aparentemente banais, sem fundações para serem mais que coisa nenhuma, mas que se nos imprimem na pele e na alma por tempo demais, às vezes, por um tempo sem fim. Como se mais palavras ou encontros pudessem ditar alternativas mais genuínas à saborosa epifania do momento breve que passou. Não deve passar de ilusão. Porque não há nada para crescer nesse sonho de olhos abertos. Quando muito, falta-nos só desbravar-lhe a dimensão. Tão grande. Inexplicável. Como esta imagem acidental nos dizer tanto sem que aqueles desconhecidos tenham algum dia sido mais que isso.

E sim, falo da fotografia, mas também de mim, da minha vida e de muitas coisas. Era inevitável.

Pieira

Faz-me uma impressão sentir este borbulhar dentro do peito.

Isso e a febre. Estas gripes de Verão...

Desliguei

Nem desgosto do mocinho, mas tive a minha dose de gente monocórdica numa determinada cadeira do terceiro ano da faculdade. Foi um trauma que me ficou. Para sempre.

A revelação

E pronto. Descobri o problema. Não sou uma mulher de hoje. É que não sou mesmo. Como é que hei-de querer viver hoje se não sou uma mulher de hoje?! Ahhh... dilema tramado!

Verdades e assim assim

Às 15h00m vou parar o que estiver a fazer. E ouvir o Ministro das Finanças. 

A luta indignada

Tirando uma troca de mails com a minha Guilhim e um esboço de projecto comum para provar a indignação a quem manda, este texto não produziu qualquer outro efeito em ninguém que por cá passa. Ah... esqueci-me. O PT disse que eu era inocente. Estou tão triste. Perceber que nada vos faz ferver o sangue deixa-me tão triste. A sério... Digam-me que nem o leram porque era demasiado extenso. Só para que fique mais descansada. É que há passos pequeninos já dados, como este. E lá no fundo do meu peito, não me perguntem porquê, eu acredito que não vamos ficar por aqui.

Da vida. Da família. Do amor. Da profissão. De tudo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Eu e o Limoeiro, o Limoeiro e eu

Perseguimo-nos mutuamente. Quando estou quase a esquecer-me dele... reaparece-me. Não tomo nada por sinal, que sei bem o que quero. Hoje e agora. Mas amanhã... Bem, e em Outubro lá parto mesmo para a capital por uns dias, parece.

Da profissão

Ninguém dá o que não tem. E um professor dá, todos os dias, alguma coisa.

Ou, dito de outra maneira, enquanto não soubermos dar uma explicação simples sobre um assunto, não o teremos percebido convenientemente. 

Austeridade e indignação

Para bem ser, a austeridade a que é sujeito e a indignação que acalenta um povo deviam caminhar em proporções diametralmente opostas. Podia jurar que um gráfico onde pudesse ler-se isto resumiria o estado de saúde anímica de um povo. O facto de o meu país me contrariar a previsão deixou-me perante uma triste encruzilhada: ou refaço os cálculos, ou concedo no seu mal ruim. Não consigo refazer os cálculos. Por mais voltas que lhes dê, nenhuns outros me parecem mais equilibrados. Por isso, com um profundo lamento entalado em mim, devo contar-vos que... Portugal está doente. Muito doente. Ora... Portugal estar doente já seria, por si, coisa de suficiente gravidade para nos atermos a procurar-lhe mezinhas de cura. Mas o grave, meus caros, é que não há tempo para isso. O mal ruim chegou mais longe. Sorrateiro e manhoso, galgou os montes e vales do território, infiltrou-se nos lençóis de água e contaminou o ar... e agora estão doentes os portugueses. É um povo inteiro doente. Doente. Mesmo doente. Quarenta anos de ditadura domaram-nos bem, dirão alguns. Eu cá, acho que não. Acho que não é isso. Nem é que não é só isso. É mesmo que não é isso, de todo. Já ninguém se lembra dos quarenta anos. Pelo menos, ninguém dos que, mais doentes entre os doentes, deviam agarrar o mal pelos cornos e virar a sorte à doença. As novas medidas de austeridade anunciadas pelo Governo caíram no horizonte dos portugueses como uma coisa que não é bem connosco. Cada vez que se anuncia um aumento da gasolina, um novo corte nos salários, o fecho de mais um serviço de saúde, outro despedimento colectivo de milhares de trabalhadores, a não colocação de outro tanto de professores, propostas de trabalho insultuosas a trabalhadores qualificados, o fecho de outra centena de PME's, rankings mundiais de misérias humanas em que tomamos a dianteira, o povo olha, como se se ganzasse todos os dias em jejum, e segue em frente, como se fosse um autómato. Perdemos a capacidade de nos indignar. Nós, pessoas, não nos indignamos. Ensimesmamo-nos na nossa vidinha, cumprimos as nossas obrigações, preocupamo-nos com as nossas férias, o nosso empréstimo, o nosso carrinho, a nossa casinha, o nosso almocinho e o nosso jantarinho e deitamo-nos todos os dias e acordamos todos os dias e continuamos a não conseguir indignar-nos. Não vos falo da indignação de mesa de café, em que se arrotam postas de pescada e se manda o primeiro ministro meter a austeridade no cu. Não é dessa indignação que eu falo. Não falo sequer na indignação de mandar a Merkel à merda quando aparece na televisão ou dizer que a Troika e o Mimi são uns cães raivosos que nos comeram a carne e agora teimam em roer-nos os ossos. Não, meus caros. Também não falo da indignação que tem produzido espectáculos deprimentes em forma de manifestação. Não. Eu falo da indignação de quem pára dois minutos e se põe a pensar. A pensar sem medo de descobrir que o caminho não se anuncia favorável. Quero contar-vos da indignação que é parte da cura do mal ruim de que padecemos todos, como se não nos sentíssemos mais que caganetas de cães zarolhos e coxos, inevitáveis fazedores de dias todos iguais e operadores automáticos de mensagens de desalento. Prepara-se, ao que sei, uma mega concentração, em Lisboa, para o próximo dia 15. Não vou. Gostava que não fosse preciso ir. Gostava, pela primeira vez, que o povo saísse à rua indignado, mas onde está. À sua rua. E sempre. Todos os dias. Gostava que entupíssemos de mails e cartas os gabinetes de quem manda com mensagens que dissessem apenas "Estou indignado/a!". Gostava que cada um de nós continuasse, no dia 15 e nos outros todos, a sair responsavelmente da cama, mas, indignados, não berrássemos, não fizéssemos barulho nenhum. Gostava que a nossa indignação não se esgotasse como se esgota a voz se falamos demais. A indignação de que vos falo não se cala nunca. Só connosco. Não proponho que amuemos, longe disso. Proponho que nos ponhamos a dar o exemplo. Produzindo queixas para o Provedor de Justiça, não deixando cair o insulto produzido contra nós por pessoas como o ex Primeiro Ministro ou o dr. Relvas da mula russa. Quem é que manda aqui, afinal?! São eles ou somos nós?! Não temos de andar ao beija mão, pessoas. Nós não somos responsáveis pelos maus actos de quem elegemos para nos governar e a quem confiámos os destinos de um país e de um povo inteiro, porra. Isto não é nenhuma inevitabilidade. Bem sei que não há oferta digna na oposição, mas não será esta a hora de, pela indignação, aparecerem os bons, os mesmo bons?! Não são os espertos, os que precisam da política. São aqueles de que a política precisa, o que faz toda a diferença. Não tenho nada contra o facto de, depois, se cercarem de amigos, desde que os amigos sejam competentes e respeitem o princípio básico de não quererem servir-se da política, mas estarem empenhados em servir Portugal e os portugueses, que não deve haver desígnio de nobreza maior. Digam-me, honestamente, se deixaram mesmo de acreditar que há solução. Não podem. Não é possível que tamanha pequenez de ambição saudável vos tenha comido a todos. Se isto é difícil? É. Deve ser. Quase impossível. Mas pelas razões todas para que deite às urtigas a minha indignação, respinga-me uma dúvida: em nome de quê?! Não há nada digno por que lutar no caminho oposto. Não podemos formatar toda a gente por igual e dizer aos boys que afinal, se calhar, é preciso pensarem menos no seu seguidismo por uns tempos em nome de uma coisa maior: o bem comum. Não podemos. Mas podemos pedir-lhes que pensem se, parando, não acham que a sua dignidade vale mais que o tacho com que lhes vêm acenando há meses. E podemos bem passar sem esses inválidos ideológicos, pessoas. Se formos mais. Se formos muitos. Se formos quase todos. Grandes. Inteiros. Indignados. No dia em que não houver abstenção e a contabilidade dos votos em branco deixar de fora apenas os seguidistas listados e, simultaneamente, desprovidos de bom senso, estas soluções que hoje temos darão, inevitavelmente, lugar a outras. Melhores, se fruto da massa crítica de quem se indignou e decidiu incomodar-se, não por precisar da política, mas porque a política, como já disse, precisa de si. Por todas as razões e mais algumas, sou pessoa dada ao direito, à ordem e à segurança. Por essas razões todas e outras tantas, nada disso me parece útil sem liberdade. Não quero indignar-vos para que vos seja mais fácil o acesso ao subsídio de desemprego. Não quero indignar-vos para que se reformem mais depressa, não quero indignar-vos para que acelerem o processo da emigração, não quero indignar-vos para se agarrem aos empregos maus como se fossem bons. Quero que se indignem a tempo de ainda viverem como têm direito: com o melhor possível. E isto, meus caros, não é o melhor possível. Enquanto tudo valer a pena, tudo for aceite à espera do que não chega e sem que haja dignidade nos lugares que nos ocupamos de preencher em eleições livres e democráticas, isto não é o melhor possível. Eu não quero saber quantos euros vou perder. Eu quero saber se é hoje que começamos a indignar-nos e a apurar responsabilidades, a fazer cumprir sentenças, diluindo, para sempre, a confusão entre os poderes, e a pegar nas rédeas deste país. Não me ofereço para a política. Tal como não me ofereço para muitas outras profissões ou missões. Aguardo as manifestações honestas dos indignados que sabem poder dar um contributo sério para acabar com isto. Sem ideologia outra que não seja esta: devolver ao cidadão de bem a sua condição de humano digno. Capaz de parar e pensar que, quando nada lhe conduz a vida pelo caminho que lhe dá o melhor possível, ainda há tempo para mudar de rumo. Indignemo-nos, caramba. Indignemo-nos com os salários, indignemo-nos com os serviços de saúde a rebentarem pelas costuras, indignemo-nos com o fim dos controladores das portagens, substituídos por máquinas, indignemo-nos com o ritual burocrático a que nos sujeitam todos os serviços do Estado, indignemo-nos com as parcerias público privadas, indignemo-nos com os negócios dos pavilhões atlânticos que por aí há, indignemo-nos com a falta de autoridade das escolas, com a demissão das famílias na formação dos seus filhos, indignemo-nos com o aumento dos impostos, com a redução das deduções do IRS, indignemo-nos com os mecanismos de atrofio dos nossos empresários honestos, esgotados, incapazes de continuar a remar contra tamanha maré, indignemo-nos com os lucros dos bancos,  indignemo-nos com os sucessivos cortes na cultura, indignemo-nos com as comitivas políticas que seguem viagem para inutilidades fora do país. Ou este Portugal deixa de ter lugar para nós. Indignemo-nos... pela nossa saúde.