Hoje, há minutos, ao voltar para casa, fiz a maior parte do caminho no meio de um trânsito infernal. À minha frente, um daqueles veículos da categoria da geringonça, entre a mota e o carro, mais estranho que os papa reformas, uma espécie de Buggy, mas de alcatrão, não sei explicar. Colado no vidro traseiro, o seguinte dizer "Suicide industry". Pensei no quão difícil seria adequar mais as palavras à realidade de circular naquilo...
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segunda-feira, 9 de março de 2015
sábado, 15 de novembro de 2014
Mum - a composição
A minha mãe sonhou que não ia ao meu casamento porque tinha de ir para a escola dar o 9!
A minha mãe tem, este ano, a primeira classe.
A minha mãe anda preocupada com a escola.
Mesmo. Muito.
Depois o sonho continuava com a colega dela a dizer que lhe ficava com os alunos um bocadinho para ela dar um salto à cerimónia.
A minha mãe ia, mas a cerimónia já tinha acabado.
Segundo a minha mãe, no entanto, o grave é que, com a atrapalhação, tinha ido de leggins.
Acho que andamos todos a precisar de descanso.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Se um dia tiver filhos, não quero que dissertem assim
Com o calor que está, trabalha-se melhor de janelas abertas. Estou para aqui numa luta de titãs com Aquilo, a ler e a escrever (a ler mais do que devia e a escrever menos do que gostaria, mas enfim), quando, há pouco, os miúdos do prédio decidiram vir brincar, como é de seu costume, para os terraços que dão acesso às garagens. Jogam à bola, andam de bicicleta, inventam nomes para cartadas novas, trazem skates e patins e sei lá mais o quê. Depois de um bocado, cansaram-se e puseram-se todos numa amena cavaqueira, sentados nos muros ou apoiados nos gradeamentos. Falavam não sei de quê, que não lhes prestava muita atenção, quando os ouço, mais afectados, erguerem as vozes com nomes em estrangeiro. Apurei o ouvido (melhor, pelas almas!) e descobri então que a "questã", como dizem lá na minha aldeia, se prendia com as condições "assustadoras" e o espaço "minúsculo" dos quartos dos hotéis em Veneza. Todos lá tinham ido, mas havia um mais indignado que os outros, barafustando que o pai já ameaçara não estar para dar mais vezes aos 500 e 600 euros por noite em hotéis que enganam nas fotografias. Que bom, mesmo, parecia o da Abumamaimu (e pronuncia correctamente o nome da mulher do Clooney, coisa que eu ainda não faço...), mas que a mãe tinha escolhido outro, porque uma amiga lhe tinha dito que era superior. Os outros não se ficavam. E adiantavam as más experiências nas capitais praí de dez países. Os putos não têm mais de oito anos. E isto faz-me impressão. Tanta coisa linda em que pensarem e apoquentam-nos as condições "assustadoras" e os espaços "minúsculos" dos hotéis de cinco estrelas. Ai Mundo, Mundo!
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Tudo para vos ver felizes #8
Tinha almoçado uma saladinha gostosa com uma amiga e sirigaitava à pressa para ver se numa hora dava conta dos quinhentos recados que tinha para aviar. Entre eles, tinha de comprar dois presentes de aniversário, um para uma primeira comunhão e um de casamento. Já que estava embalada, ainda perdi a cabeça e cometi uma pequena loucura consumista tão perfeita que não fazem ideia. Só não vos conto, porque não é para mim. (Mas o meu homem merece!) Estou nesta roda viva e ao telefone quando uma mulher que eu nunca vira mas com a qual me identifiquei de imediato por parecer, tal como eu pareço frequentemente, uma despenteada mental, me toca no ombro e diz que quer falar-me, mas que aguarda. E põe-se especada a olhar para mim, inibindo-me de responder coisas mimentas ao rapaz, como amo-te muito e assim. Desligo e ela pega-me no braço. E eis o diálogo que se segue.
Senhora (S): Preciso mesmo de lhe falar.
Eu (R): Desculpe, mas nós conhecemo-nos?
S: Não, mas vamos conhecer e vamos ficar amigas?
R: (oi?!) Desculpe?! Como assim?!
S: Não pude deixar de reparar que tem um saco muito fora do vulgar. Eu também faço sacos fora do vulgar. Tenho três colecções esgotadas e apresentei hoje a linha de praia e só cá tenho um e ele é para si.
R: (oi?!) Como assim?! A senhora desculpe, mas eu não estou a perceber...
S: Vamos para ali e já lhe mostro.
R: (oi?!... seguindo a mulher... vá-se lá saber porquê...)
S: Sou professora. De história. E você?
R: Também?
S: Também é professora de história?
R: Não. Também sou professora.
S: De quê?
R: Penal.
S: Huuummm. Isso é dos técnico profissionais?!
R: (oi?!) Bem, mostre-me lá o saco, que estou mesmo com pressa.
S: Tcharam (com o som de um rufo a seguir...)
R: (what a fuck?! Só a mim e a mais ninguém!) Olhe, não é mesmo o meu estilo. Desculpe.
S: É exclusivo. Só há seis.
R: Bem, mesmo que fosse de facto exclusivo e, portanto, só houvesse este, não seria o meu estilo. Não insista, por favor. Bom trabalho.
S: (agarrando-me novamente no braço) Tem a certeza?!
R: Tenho. Olhe, se quiser, diga-me qual a sua página e se eu depois vir alguma coisa de que goste, eu entro em contacto consigo, está bem?
S: Não tenho tempo para páginas. Estou sempre a coser sacos.
R: Pronto, então, olhe, bom trabalho. (Enquanto me vou afastando com medo...)
S: Tem a certeza?! Tem a certeza?! Tem a certeza?! (num som cada vez mais sumido... por ficar lá longe...)
Agora a explicação do dito saco exclusivo de que havia afinal seis:
cosidos muito mal amanhadamente com isto, que, entrançado, fazia as alças
e, la pièce de résistence, ilustrações de ambos os lados com palmeiras, feitas a marcador, por quem tem tanto jeito para desenho como eu para dissertar sobre matemática aplicada.
Um must, portanto!
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Médica das senhoras
A minha é uma querida. O meu historial conta com visitas à médica das senhoras desde muito menina - onze anos. Não, não fui uma mãe adolescente, nem me deu para ramboiar ao largar a fralda, mas isto de se terem uns antecedentes familiares complicados e uma mãe galinha pôs-me nas lides de tudo quanto é médico "ista" muito cedo (para além dos mais clássicos na infância - dentista e oftalmologista -, otorrinolaringologista, cardiologista e ginecologista). Por isso, enfim, há vinte anos que vou à médica das senhoras. Não é novidade para mim. Vou a esta há uns dez, seguramente. Conhece-me bem. Trata-me por filhinha. Gosta de mim, eu sei que sim. Talvez isso justifique as perguntas que não calou hoje na consulta e que serão, nos próximos tempos, mote insuperável para valentes gargalhadas em família, e de que destaco, para deleite vosso e porque sou uma querida, esta:
- O teu rapaz não é dos que dá à sola se engravidares, pois não, filhinha?!
sábado, 29 de junho de 2013
Tudo para vos ver felizes #7
Ontem, estava eu no cabeleireiro, a ler uma revista de fofocas, quando aparece uma fotografia da Charlotte do Mónaco. A L. pára o secador e segue-se esta pérola:
L.: Ela está grávida?! (Ar de absoluto espanto)
Eu: Parece que sim.
L.: (Abanando a cabeça, de secador na mão, completamente chocada) Ai... ai... não é possível. Então... então... então mas eu nunca desconfiei de nada...
sábado, 22 de junho de 2013
Tudo para vos ver felizes #6
O mano vai mudar de casa. Vai deixar de viver com a melhor amiga e vai passar a viver com o melhor amigo. Andam, ambos, com as respectivas caras metades, à procura de casas baratas do lado de lá do rio. Na semana passada, encontraram um anúncio com umas fotos apetecíveis e decidiram ir ver a casa. Ligaram, ligaram, ligaram e... moita carrasco, nada. Passado um tempo, ligou-lhes a proprietária que, muito prontamente, se disponibilizou a fazer-lhes a visita. Aí vão eles, todos lampeiros. Chegam lá e, à porta, a senhora diz-lhes que havia só uma coisinha de que ainda não tinham falado. O mano pediu-lhe que fosse mais precisa. E é então que a senhora lhes diz "Ainda não sabem do brasileiro." Completamente aos papéis, os miúdos insistiram que não estavam a perceber.
Senhora: É que a casa tem lá um brasileiro!
Mano: Sim. E quando é que ele sai? Nós só precisamos da casa em Setembro.
Senhora: Ele não sai.
Mano: Não sai?! Não sai, como?!
Senhora: Ele fica.
Mano: Olhe, desculpe, então mas a senhora está a dizer-nos que pretende arrendar a casa com um brasileiro lá dentro?!
Senhora: Pois.
Melhor amigo do mano: Um brasileiro de brinde :)
Mano: Um brasileiro de fava, queres tu dizer.
Senhora: Subimos?!
Mano: Não, minha senhora, deixe lá. Não quero ter de discutir aqui com o meu amigo sobre a quem calhará dormir com o brasileiro. Somos mesmo amigos, está a ver?!
Namoradas dos dois: (a rirem à gargalhada)
Melhor amigo do mano: (a abanar a cabeça)
Mano: Valeu pela tentativa, mas olhe, fica para a próxima, sim?!
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Se tu queres, tu tens
Voltemos a falar de alguém que chamou a nossa atenção.
Toda a gente que aqui vem sabe que eu tenho um melhor melhor amigo e que o meu melhor melhor amigo tanto pode tratar-me por princesa e linda e mandar-me mensagens de madrugada só para dizer "Adoro quando sorris!" como chamar-me zé macaca ou ranhosa e ligar-me a dizer que eu sou uma inútil se se der o caso de lhe comentar um recurso de expropriações, a dizer "Não percebo nada disto!". (Não gosto de expropriações!). Quem cá vem também já terá percebido que se eu sou desastrada, o meu melhor melhor amigo é caótico. É menino para se apresentar para dar uma aula com o casaco de fato bolsado por um dos filhos ou para achar que ninguém nota que traz uma haste dos óculos presa por fita-cola. Vai daí, nada de estranho tem o episódio em que o meu melhor melhor amigo perde telemóveis ou simplesmente os inutiliza por deixar cair nos sítios mais estranhos. Na semana passada, foi mesmo no lavatório. Morreu-lhe, o bicho. Morte matada, ademais. O meu melhor melhor amigo tem, por tudo isso, 547893 números de telemóvel diferentes, para as eventualidades, de cartões que lhe calham no Presto ou oferecem em promoções de pens de banda larga (coisa que também consome muito). Na sexta feira, a meio da tarde, recebi uma mensagem que dizia simplesmente isto "Então, ranhosa?! Há novidades?!" Imaginei que fosse ele, mas quis fazê-lo sofrer. Por isso, mandei em resposta um seco "Quem é?!"Demorou quase uma hora a escrever uma mensagem. Dizia "Não é a R.?! A R. inha?! Não é a minha R. inha, de tal sítio assim assim e que trabalha em tal e tal?! Não és?!". Eu, mula, calei-me. Estava já na FNAC do Vasco da Gama a sirigaitar quando a alminha se decide a ligar. Assim que atendo, respira de alívio e pergunta se não tinha visto a mensagem. Eu digo que só tinha visto a primeira e que pensei que fosse engano, porque não era o número dele e ele seria única pessoa a chamar-me daquela maneira. Agora imaginem. Enquanto digo "embora tu sejas a única pessoa a poder chamar-me ranhosa", há meia FNAC que se volta e se cala, concentrando toda a sua solidariedade em mim. Um Senhor bem apessoado, porém, percebe que a história é mais piadética do que à partida parece e é então que se inicia a linda perseguição em que, sempre que passa por mim, o Senhor se assoa. E ri.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Tudo para vos ver felizes #5
Hoje à tarde fui fazer umas madeixas (quase invisíveis, segundo a minha mãe, mas pronto, foram mesmo só para disfarçar os brancos e não gosto de cabelos de duas cores, por isso só pus um tom abaixo da minha cor natural) e aproveitei para pintar as unhas de uma cor para que não tenho muita paciência quando sou eu a pintá-las. Posto isto...
Fui aos chineses comprar uma iluminação. Para além de um doutoramento em luzes de Natal, vim com a minha retórica apuradíssima. Tive de lhe justificar porque é que "uma menina tão linda, tão linda e blankinha, blankinha, pinta as unhas de pleto, tão feio pleto no Natale. Podia pintale de vemelo, tão lindo."
E é isto. Acontecem-me coisas destas.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Passou-me agora isto pela cabeça*
A casar-me, perfeito seria a 20 de Dezembro de 2014. Faria alta festa para também comemorar os 33, com sorte ainda podia gabar-me de, afinal, ter conseguido entregar uma tese a tempo, ainda estava em idade fértil, casava-me com frio e... podia ir de lua de mel para a Lapónia.
Aceitam-me inscrições.
É preciso querer ir de lua de mel para a Lapónia. E não ter por sonho usar um fato de tecido brilhante no casamento.
*Tudo por causa do comentário da A. ao post de há pouco.
domingo, 28 de outubro de 2012
Tudo para vos ver felizes #4
No comboio.
Duas jovens portuguesas.
Duas jovens chinesas.
Uma boa hora depois de muita conversa e troca de impressões, tudo com o som no máximo, uma portuguesa pergunta:
E da comida portuguesa, gostam?
Ambas as chinesas respondem em uníssono:
Muito.
Uma das chinesas acrescenta:
Principalmente, mão de vaca.
Toda uma carruagem pára o que está a fazer e interioriza a informação.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Tudo para vos ver felizes #3
Desta vez falo de uma pessoa que vi hoje e que chamou a minha atenção. Ou melhor, a nossa. Fui com o mano ter com uma amiga nossa que é médica cá e que é quem anda a fazer-lhe os pensos da mão. O mano estava impaciente, que já estava atrasado para as aulas da tarde, e eu resolvi ajudar a passar o tempo fazendo-lhe perguntas em catadupa, num daqueles exercícios que pratico mais com a minha mãe em dias de chuva no Verão: adivinhar nacionalidades. Bem nos esforçámos, mas a visita dos emigrantes à terra, em Outubro, não é assim por aí além e não havia muita matéria prima na sala de espera. Vai daí que nos pusemos só a apreciar. E nos detivemos ambos naquilo que seria um dos melhores exemplos possível de alguém que nunca conviveu com o meu chefe e portanto nunca foi evangelizado pela regra do less is more. Uns saltos de cunha altíssimos, roxos, de veludo, umas calças muito justas pretas com umas costuras prateadas, uma camisa dourada, um colete de pêlo bege, uma carteira verde, umas argolas de plástico cor de rosa, uns ganchos prateados e dourados no cabelo, as unhas pintadas de amarelo e os lábios de vermelho. Todo um arco-íris dividido quanto às estações do ano, portanto. Olhámos um para o outro e mantivemo-nos calados. Tinha passado já um bom bocado sobre o início do nosso silêncio, vagueavam já os meus pensamentos sobre a melhor hipótese para um caso prático de erro sobre a ilicitude, quando o mano inspira profundamente e lhe sai esta pérola: É daquelas que gostam que lhes digam "Então, Gata, tudo miau?!". Ainda me estou a rir.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Tudo para vos ver felizes #1
De cada vez que olho para esta fotografia, lembro-me que acabou por descobrir-se que estas duas pessoas nunca se tinham visto na vida antes deste momento e não mais voltaram a encontrar-se depois dele. Garantem ambos que não trocaram uma única palavra. A euforia pelo fim da última grande guerra deu lugar ao beijo. E as palavras... não foram precisas. Sempre que me demoro a pensar na história real da fotografia, lembro-me ainda de uma das cenas finais do filme Notting Hill, em que o amigo mais desastrado de Will, inebriado pelo final feliz do par romântico da história, agarra com ambas as mãos a desconhecida que está ao seu lado e lhe dá um beijo. E não me fico por aqui. Como em quase tudo o que me diz alguma coisa, tenho momentos de revisitação emocional desta fotografia. A tempos, lembro-me dela. Hoje, situo-a naquele patamar das explicações que não se dão, sobre as coisas mais mágicas que nos acontecem na vida, aparentemente banais, sem fundações para serem mais que coisa nenhuma, mas que se nos imprimem na pele e na alma por tempo demais, às vezes, por um tempo sem fim. Como se mais palavras ou encontros pudessem ditar alternativas mais genuínas à saborosa epifania do momento breve que passou. Não deve passar de ilusão. Porque não há nada para crescer nesse sonho de olhos abertos. Quando muito, falta-nos só desbravar-lhe a dimensão. Tão grande. Inexplicável. Como esta imagem acidental nos dizer tanto sem que aqueles desconhecidos tenham algum dia sido mais que isso.
E sim, falo da fotografia, mas também de mim, da minha vida e de muitas coisas. Era inevitável.
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