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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ti C.

Morreu a minha Ti C.
Estou de luto.
Logo hoje...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Paz

Estava para sair de casa quando me previram uma tarde serena. Assim foi. Entre muita saudade e algumas lágrimas, despedimo-nos do Ti V.. Da cara, da expressão, da voz. O resto, o resto fica connosco, para sempre. Os conselhos, a reinventada língua portuguesa. Há quinze dias pediu que lhe guardassem a bicicleta porque por ocasião do tempo melhor ainda daria nela umas voltas. Não deu. Hoje, a Ti C. destinou-a ao meu mano. O meu mano pequenino. O neto emprestado que mais presente lhes esteve nos últimos vinte anos. O rapaz crescido que hoje não parava de chorar. O Ti V., mais que qualquer outra coisa, deixa saudade. A muita gente.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ti V.

Morreu.
E é isto. Estou a ver se acredito.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Dialecto tiês

- Esponque (Suponho que, talvez)
- Alsarvar (Observar)
- Afirmar as vistas (Ver com atenção)
- Ópois (Depois)
- Cachopa (Rapariga, mulher jovem)
- Atão (Então)
- Entrudo (Carnaval)
- Arrecuar (Recuar)
- Desasado (Sozinho)
- Entronhar (Amuar)
- Pírula (Pílula)
- Bobi (Hobby)
- Cardícla (Doença cardíaca)
- MIMI (FMI)
...

Fui visitar os tis ontem. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os HUC e a crise

Por razões que não vêm ao caso, tenho ido, nos últimos dias, todos os dias, visitar uma pessoa aos HUC. E há uma coisa que me impressiona. De todas as vezes, eu arranjei estacionamento com a maior facilidade e quase à porta. Mesmo no domingo. Lá dentro, nos elevadores, andam poucas pessoas. Muito poucas. Já subi e desci algumas vezes sozinha. As camas estão cheias nos internamentos, mas muitas pessoas passam dias sem receber uma única visita. Os sinais da crise fazem-se sentir, por exemplo, quando há pouco, para uma ala inteira, com mais de 60 camas, estavam à vista dois enfermeiros. Só dois. Mas também se fazem sentir nos quartos só ocupados por doentes. Sem mais ninguém. O preço dos combustíveis, a necessidade de poupar em tudo, a obrigatoriedade de repensar os orçamentos abalados pelo desemprego e outras mazelas impuseram aquele silêncio hospitalar quebrado pelo som dos programas da tarde. Tocam telemóveis, mas não se tocam as pessoas. E isto faz-me uma confusão danada.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Friza

A casa dos meus pais está rodeada de pinhal por todos os lados. Bem... sejamos mais precisos. Atrás há um canteiro gigante com uma oliveira e agapantos, de ambos os lados e à frente há jardim. À frente também há a estrada, claro. Mas, tirando isto, só há pinheiros (e eucaliptos). Ora, eu não sei se é disso, se do que é. Sei que a sombra que o verão faz saber a mel agora traz humidade e nem com duas lareiras acesas e aquecedores por todo o lado o frio dá trégua. Tenho dois pares de meias e umas pantufas da Serra da Estrela, um pijama acolchoado, uma camisola de lã e um roupão quentinho. Ando de gorro e se não tivesse de trabalhar estava de luvas. De cada vez que me ponho a andar, sinto-me um daqueles bonecos da Michelin. Aqui não está frio. Aqui está, como diria a minha Ti L. depois de uma semana a visitar o filho em França, uma friza do raio.

quarta-feira, 16 de março de 2011

MIMI

Ontem, depois de ouvir o Primeiro, temi durante cinco minutos que me tocassem à porta, eu abrisse e... fosse o FMI. O FMI, ou MIMI, como lhe chamam as tis, ao que parece, é o homem do saco do Século XXI. Sempre tive medo do homem do saco. Nunca temi o cigano porque a minha mãe teve muitos alunos ciganos e sempre foi malta impecável comigo. O MIMI corta salários, o MIMI não dá subsídio de natal, nem de férias. O MIMI está literalmente cagando e andando para as nossas férias, é o que é. O MIMI, o Primeiro não disse para não nos assustar, mas eu quer-me cá parecer que o MIMI vai instalar campos de refugiados (do MIMI) na Lousã, em dois ou três montes do Alentejo e em Foz Côa. O MIMI monta lá umas tendas, leva-nos em frugonetas e deixa-nos lá à míngua, ralhando ferozmente para não fazermos barulho. O MIMI não entende a nossa língua. Acha que carregamos nos rr e acabamos muitas frases com ssss. O MIMI não gosta, porque os mais incautos cospem a dizer os ssss. O MIMI vai sentar-se no Terreiro do Paço, numa mesita do IKEA, e vai fazer esboços do Portugal moderno. Volta meia volta o MIMI levantar-se-á por lhe doer o real traseiro e há-de ir ao Martinho da Arcada. Arrombará a porta e roubará todos os pasteis de nata. Lambão. O MIMI, daqui a uns meses, terá um lindo esquiço do que havemos de ser e então porá mãos à obra. O MIMI arrasará tudo com máquinas com nomes estranhos, tipo catrapiler, ou assim, e começará, pedra sobre pedra, a fazer o novo Portugal. Quando o MIMI acabar a gente já há-de ter quinado, ou seremos muito velhos (eu devo ser velha, porque ainda sou uma garota agora). Mas restarão os nossos filhos e netos, escravos do MIMI, para servirem de colonos do novo Portugal. E não serão felizes para sempre, porque vão ter de varrer Portugal todos os dias e polir, nem que seja com cuspo, todas as obras que o MIMI tiver feito. O MIMI virá cá todos os anos, duas a três vezes, abastecer-se do que lhe faltar e no fim dos tempos ainda será assim e ainda teremos uma enorme dívida com o MIMI. O MIMI é mau e feio. Desde ontem, sei que o que devemos eleger como prioridade é afastar o MIMI das nossas casas. Porque o MIMI não é de confiança. O MIMI quer acabar connosco. Diz que. Foi o Primeiro que contou. E o Primeiro lá sabe.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ti

O meu Ti V. está doente. Muito. E pediu à minha mãe que eu não passasse de sábado sem o ir ver. E que levasse o casaco comprido preto e o cabelo solto com caracóis.

Custa-me tanto separar das minhas pessoas. Tanto. E o meu Ti V. está doente. Muito.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ti C. e a modernice das famílias

"Porque sou gente que nunca abalou a lembrança para famílias que não fossem com uma mãe e um pai e mais os filhos. Às vezes, sucedia finar-se alguém, ou fugir, ou assim, mas era mais raro. Agora não. E nem me oponho, filha. Que isto é lindo é se andar toda a gente a rir. Mas tu, eu sei que tu, tu, sinto mesmo, não tens sonho de filhos de toda a raça de pai. Pareces-me assim à cata do mesmo pai para toda a espécie de garoto. Tu, filha, acho eu, ainda queres que sejam todos de um amor para sempre."

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ti V.

O meu Ti V. fez 90 anos!!! Se dúvidas restassem sobre o espírito, dissiparam-se quando segui o beijinho de um "e que para o ano cá estejamos outra vez" e ele resolveu dizer "chegados a pedir, pedimos pelo menos mais dez!" O meu Ti V. fazer 90 anos é, só por si, acontecimento digno de um post. Mas o que aqueles três mânfios me fazem sentir relativamente à vida e ao sentido de conhecer e guardar pessoas para sempre não cabe em posts. Por isso, acho melhor partir para a comédia e mostrar-vos pelo menos uma razão para os adorar. Quando cheguei, já a noite tinha caído e cá fora estava escuro como breu. Sabedora da sua mania de assustadiços, lá fui aos apalpões por entre os vasos de flores até dar com a porta da sala. Bati sorrateira, disse que era eu e abri a porta em resposta ao "Chega-te, filha"! Quadro: ele, a mulher, que é a minha Ti C. e a irmã desta, que é a minha Ti L., sentados no sofá, em frente à televisão, cada um com um boné! Bem... pensei eu... vão dar uma volta e já estão equipados. Mas lembrei-me que todos usam bengala... Não era muito provável... Beijinhos e abraços para aqui, quando é que te casas para acolá e ai cachopa que tás tão linda para acoli... Muitos minutos depois, a sacramental: "Mas algum de vocês me explica por que é que estão todos de boné dentro de casa?!" Resposta pronta da minha Ti C.: "Para vermos televisão!" Huuummm... estava a escapar-me alguma coisa: desde quando é que é preciso boné para ver televisão... Sou uma tipa óbvia. Disfarço mal as inquietações. Devo ter torcido ao de leve este lindo narizinho que Deus me deu, porque então seguiu-se a explicação: "Mudámos a lâmpada. O Manel da loja disse p'ra gente comprar destas que são mais poupadas. E se calhar até são, não vamos contra isso... Mas começam com uma luz "a mode" que fraca, mas depois vai piorando, piorando... quer dizer... ficando cada vez mais forte, cada vez mais forte, que até parece que cega... E então a gente põe estes bonés para estar com os olhos mais abrigados!!!"
Fartei-me de rir :)

sábado, 27 de junho de 2009

É o amor!

Depois da festa, fui visitar as Tis. As Tis, tal como já contei em tempos, são primas velhotas, na casa dos 80 ou 90 anos. São duas manas. Uma casada com um Ti e outra viúva desde antes de eu nascer. As Tis gostam da minha mãe como de uma filha e de mim como de uma neta. E andavam numa lufa-lufa de telefonemas e recados desde que decidi descer uma escada de cabeça, numa aflição só enquanto não lhes aparecesse para me mirarem. Para as Tis, estou sempre na mesma: branquinha, com ar cansado, meia minguada nas feições, mas linda. As Tis adoram-me. E eu adoro as Tis. A Ti L. tem o filho em França e basta que lá passe uma semana para vir a dizer "ça va!". Foi ama do meu irmão. Dormiu comigo muitas noites em que tive febre. Ensinou-me a dançar a valsa. E ralhou-me alto e bom som quando num baile da terra deixei um colega da escola no meio da roda porque a mãozinha do moço não sossegava na cintura. A Ti C. é mais velha, casada com o Ti V., mais velho ainda. Mas são o espelho do amor. E vê-los é ficar perante a vida toda feita em duas pessoas. Sofreram os horrores de perder os três filhos. E lembro-me bem da quase loucura em que permaneceram quando isso lhes bateu à porta. Porque os pais não devem ver morrer os filhos. Sei de cor as arreliações mútuas que inventam para passar os dias a pensar noutras coisas. Mas o que me ficará para sempre, mesmo quando eles já cá não estiverem, são cenas como a de hoje. Ele a ajudá-la a pôr o lenço e a chegar-lhe o pente, depois de lhe ter tirado uns pelos traiçoeiros que lhe povoavam o buço. E ela, numa voz calma de quem sabe que não vale a pena falar a correr para se dizer tudo bem dito, a acrescentar que o homem é uma fortaleza que até se lembra das horas dos remédios dela. E ambos, depois, genuinamente empenhados em fazer-nos crer que a felicidade está em irem um antes do outro, porque sozinhos isto deve custar muito a levar. É o amor!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Os conselhos da minha Ti C.

Ela: Ai, menina, não te cases, que anda aí um mal muito ruim a correr a mocidade que casa...
Eu: Um mal? Que mal?
Ela: Correm divórcio por tudo e por nada!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

BonecRo

A minha Ti C. tem quase 90 anos e diz que quer ao menos viver mais 15 para ver o rumo do Mundo. A minha Ti C. é irmã da minha Ti L. e mulher do meu Ti V. A minha Ti C. acha que é uma grande coisa eu ganhar 10 minutos do meu tempo a levá-la à farmácia para medir a diabetes e o colesterol. A minha Ti C. diz que o meu Ti V. a mata de arreliação, porque perto dos 90 anos ele ainda quer andar de mota. A minha Ti C. chora se eu lhe faço biscoitos caseiros e lhos levo ainda mornos. A minha Ti C. dá-me caixas de sortidos no Natal e escolhe sempre a que tem o desenho mais bonito. A minha Ti C. perdeu os 3 filhos que pariu e quase enlouqueceu. A minha Ti C. só não enlouqueceu porque ainda tem razão para não enlouquecer. A minha Ti C. ama o meu Ti V. como quando, há quase 70 anos, se casaram. Arrisco que ainda há ali paixão, até. A minha Ti C. disse-me um dia destes: "Havias de o ter visto, com umas calças novas de uma fazenda muito mimosa e uma jaqueta a condizer. Ai cachopa, parecia um bonecRo. Mas é arreliador. Veio da missa e foi rachar lenha naqueles modos". A minha Ti C. não sabe o que é um post, nem internet.
(7 de Novembro de 2008)