Às vezes, ele pergunta-me quando poderemos fazer só o que nos apetecer, ir só onde nos der vontade de estar, ver só quem nos fizer bem, falar só com quem gostamos, jantar só rodeados de amigos, sair de casa só porque nos dá na gana. Fico a olhar para ele a vagar e escolho meticulosamente as palavras. É mais por mim do que por ele que nos debatemos a tempos com fretes. A minha profissão, o meio em que me movo, as pessoas com as quais o meu caminho se cruza potenciam mais esta espécie de falta de liberdade que às vezes nos aborrece. Escolho as palavras para lhe dizer que não sei bem, que houve um tempo em que achei que isto lá ia pela idade, pelo estatuto que eu achava que a idade dava e que nos permitia mandar às urtigas o que nos apetecesse. Quanto mais cresço, mais sinto que a resposta peca por ingenuidade. Das grandes. Haverá sempre alguém a quem deva estar presente, a quem não possa dizer que não, a quem tenha de dar conversa. Por mais que, nesse dia, em concreto nesse, logo nesse, mais me fizesse sentido era ficar em casa. Não sei, meu querido, quando seremos donos de todo o nosso tempo. Resta-nos a felicidade de sermos livres no pensamento e de, onde quer quer estejamos, podermos estar a mandar às urtigas, sorrindo, quem nos apoquenta.
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sexta-feira, 15 de abril de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Há coisas que me levam ao vómito
Uma delas é pensar que Lula veio dizer que aceita ser ministro, passando, dessa maneira, a gozar de imunidade.
Para onde caminhamos todos, cambada?! Como seguramos bem altas as palas, pessoas... Como nos escorre a vergonha pelas pernas abaixo enquanto permanecemos sentados, oh humanos... Que Estados são estes? Que democracia alcançámos? Que justiça resiste?
Estou em estado de choque!
sexta-feira, 11 de março de 2016
Da Universidade... Ou do que (já não) resta dela
Hoje, a partir das 14h, farei parte de um júri de provas mestrado. A seu tempo se percebeu que talvez não se justificassem as provas de quase três horas de que ainda fui vítima há uns não muito distantes sete anos. E então, concedeu-se, podiam ser marcadas mais provas num só dia, ou até, numa só tarde. Ocorre que a burocratização do ensino e a mania (que me fere a vista diariamente) de fazer de toda a gente mestre levou a esta coisa fantástica de eu hoje ter marcadas sete provas de mestrado numa tarde. A minha faculdade fecha portas às 20h, o que significa que, no máximo, podemos dar a cada aluno a dignidade de uma prova de 45 minutos. Sobram-nos outros 45 que, dividindo por sete, permite uma discussão e fundamentação de nota de 6 minutos e 4 segundos por prova. Não contabilizo, nestes meus números redondos, esse imprevisto a que todo o custo se procurará obviar de, por exemplo, um dos elementos do júri precisar de fazer chichi, notem bem. Em orais de melhoria de nota demora-se, com muita normalidade, 45 minutos ou mais. Entende-se que é preciso calma a debater as coisas, que não estamos a virar frangos, que há que perceber se a pessoa pensa, raciocina, "dá o salto", ou se apenas decorou e é uma enorme fonte de frases feitas que nunca, porém, chegou a entender bem. Hoje à tarde, eu terei de fazer mais omoletes, mas com menos ovos. Não vai de lá sair ninguém com penal feito que é coisa que, a bem dizer, deve ter-se por dada e garantida - penal, aliás, mais que feito, deve estar bem sabido, que a pessoa afinal meteu-se por esses mesmos caminhos à procura de um grau académico acima. Vão de lá sair mestres. E, contudo, reparem, eu não posso demorar-me mais que 45 minutos com cada um. Espero que me respondam à primeira à não mais que meia dúzia de inquietações que lhes levo, em esforço verdadeiramente estúpido e por certo pouco frutífero de, com três penadas, perceber logo se pensam ou só debitam. Este, assim, tal qual vos conto, é o estado da Universidade. Não é só da minha e isso dá-me ainda mais pena. Porque, de tão banalizados que foram os atropelos ao que é ser-se académico, torna-se cada dia mais difícil permanecer, ser para lá dos papéis e dos prazos, garantir que os mestres que eu ajudarei a fazer não me envergonharão já amanhã. Há dias em que ser professora universitária se distancia muito pouco de ser caixa de supermercado, a passar produtos pela máquina, de ser vendedora da Remax, a trabalhar por objectivos, de ser empreiteira de chave na mão em tempos de chuva, a fazer à pressa para cumprir prazos. Há dias em que eu tenho mesmo pena de fazer parte deste sistema. E em que, com franqueza, só me apetece mudar de vida e voltar a trabalhar numa Universidade a sério. Assim as houvesse...
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Sobre o cartaz
Usaram o argumento do cartaz, comigo, numa aula sobre relações familiares duradouras com crianças, há cerca de uma semana. Talvez a criatura fosse do BE. Não altura, não percebi. Não o disse por piada. Deu-me o exemplo, como se falasse sério. Passei por cima, relembrando-lhe que só discutia a coisa na base do jurídico. Depois, esta semana, o cartaz. Quanto a ele, de resto, só lamento. Mas só lamento mesmo. Não me ocorre ocupar-me mais com isso. Não foi feliz. Não teve piada. De qualquer modo, acho que não merecia tanto alarido. Aliás, o alarido cumpre, na minha opinião, metade do que pretendiam com aquilo. Não dou para o peditório. Não os levo suficientemente a sério para isso. E não me ofende a fé quem quer. Têm uma missão: ser fracturantes, sobre tudo, sobre todos, custe o que custar. Há alturas em que se perdem. Estar sempre a inventar temas fracturantes deve cansar.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
O lema da cidade de Paris
Fluctuat nec mergitur.
Está escrito no escudo da cidade desde a Idade Média, muito antes de se falar em terrorismo, ISIS ou Kalashnikovs. Significa: "É sacudida pelas ondas, mas não afunda!"
sábado, 14 de novembro de 2015
Outra vez... não!
Atentados em Paris, 13 de novembro de 2015
Um murro no estômago para quem pensa pôr filhos no Mundo... O que é isto? Quem é esta espécie de gente que brinca assim às mortes como quem acha que a vida é pouco mais que nada?
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Finalmente... sobre as eleições!
Vamos supor que dez amigos se juntam para decidir a cor do serviço de jantar que pretendem oferecer a outros dois amigos. Há serviços de todas as cores, mas, em regra, os preferidos são um clássico azul escuro ou um modernaço amarelo canário. A votação, essa, foi no seguinte sentido:
Azul escuro - 3 amigos
Amarelo canário - 2 amigos
Café com leite - 2 amigos
Dourado - 2 amigos
Cor de rosa - 1 amigo
Feitas as contas, e parecendo ter vencido o azul escuro, resolvem encomendar o serviço. A impaciência do amigo A, que votara no amarelo canário e sempre disse que não havia cor mais bonita para alegrar uma mesa, há muito que se fazia sentir, mas foi já no interior da loja que decidiu armar uma cena e dizer que o serviço que tinham de levar era o amarelo canário. Se não, veja-se, argumentava A: amarelo canário teve dois votos apenas, é certo, mas se lhe somarmos café com leite e dourado, que puxam um bocado ao amarelo, quer se queira, quer não, então o "seu" serviço já perfaz seis votos. E, bolas, que não lhe viessem com tretas: seis era maioria, disso não havia dúvidas. Está bem que os seis podiam ter votado no amarelo canário e não o fizeram, mas, caramba, votaram todos dentro da mesma paleta de cores, mais quente ou mais fria, mas ali à volta dos amarelos. E, continuava A, esta seria a solução mais justa, tanto mais quanto parece impossível dizer que cor de rosa possa confundir-se com azul. São cores completamente diferentes, não têm nadinha a ver. E ainda por cima, juntas, perfazem menos de metade dos amigos votantes. Para A, conclui, não há dúvidas: avance-se para o serviço amarelo canário.
Vamos agora supor que eu sou especialista em cores e consigo explicar-vos que amarelo canário não é igual a café com leite e nem dourado se confunde com as duas cores precedentes. Vamos, finalmente, supor que eu consigo explicar-vos, como se fôssemos todos muito burros, que os amigos que foram à loja e votaram no café com leite e no dourado podiam... ter votado no amarelo canário. Não votaram, simplesmente porque não quiseram. Escolheram não votar nem no azul escuro, nem no amarelo canário, nem no cor de rosa. Dois escolheram ainda não votar no café com leite, porque já estão a imaginar que o dourado é que fica bem nos castiçais que a amiga põe sempre na mesa. E os outros dois, bem, acham que nada ficará tão bem com o tom das paredes da sala da amiga que um serviço café com leite. Se o amarelo canário lhes podia ser opção? Eh pá, até podia, se, por exemplo, antes desta votação tivessem pedido à amiga que limitasse a escolha a duas cores e ela tivesse dito que preferia azul ou amarelo canário. Acontece que não pediram, que a amiga nem sabe que vai receber o serviço, que a loja lhes perguntou que ideias traziam e eles disseram que o melhor era verem tudo e que vencesse o melhor.
Eu cá, honestamente, não sei se o azul é o melhor, nem tão pouco se é daqueles que se estragam quando vão à máquina. Sei apenas, e é o que me interessa, que, pelas contas que aprendi a fazer há quase 30 anos, ganhou o azul. E o A não sabe é perder. E isso, deixem-me que vos diga, é mesmo pouco democrático!
P.S. "Puxar um bocado ao amarelo" e "andar à volta do amarelo" não significa "ser amarelo"!
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
167
167 currículos enviados em duas semanas. Um título profissional do mais pomposo e um título académico a meses de se tornar de topo (se tudo correr bem...). 167 currículos enviados. Todos os dias cartas, mails e telefonemas. Que aguarde. Que espere. Que me doutore e depois é que é. Que a crise e a puta que pariu isto tudo. 167 currículos enviados. Os dias ocupados a fazer coisas espertas e que metem imensa figura. Cá. E lá fora. 167 currículos enviados. E uma frustração do tamanho do Mundo. Este país não está para pessoas.
Depois vê-se a Grande Reportagem de ontem, na Sic, e fica-se sem pio. Uma pessoa acomoda-se e acha que, enfim, podia ser pior. Ganha 1/4 (sim, leram bem) do que ganhava em 2011 e põe tudo em causa, mas acha que, enfim, podia ser pior. Podia não ter nada. Nem pais. Nem B. Nem amigos. Nem nada. E podia ter nascido na Síria. E obriga-se a ver o copo meio cheio. Mais um bocadinho. Outra semana, outro mês.
Depois assiste ao debate das legislativas e apetece-lhe mandar gente à merda, dar murros em caras e partir canelas. Mas acha que, enfim, podia ser pior.
Podia. Mas também podia ser melhor, porra.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
O equilíbrio é difícil, mas...
Guia prático para cada um fazer a diferença na ajuda aos refugiados
Pode dar dinheiro, ser voluntário, comprar uma lanterna que vai ajudar um refugiado, ou apenas clicar no sítio certo. É professor de português? Há quem precise de si. Veja a lista e decida.
Já ninguém tem dúvidas, esta é a maior crise humanitária depois da II Guerra Mundial. Milhares de pessoas estão a fugir da guerra e a chegar à Europa. Muitas morrem pelo caminho, muitas nem conseguem sair dos seus países onde correm risco de vida. Serão cada vez mais. E precisam de ajuda. Precisam de ajuda na Europa, precisam de ajuda ao longo do caminho e precisam de ajuda nos países de origem. Aqui fica um guia (que vai sendo atualizado) do que pode fazer para ajudar. Pode ser pouco, pode ser muito. Pode significar oferecer a sua casa, ou apenas clicar no sítio certo. A escolha é de cada um.
Ser voluntário, oferecer a casa, doar bens… e dar aulas
Centro Português para os Refugiados
Há dois centros de acolhimento, um na Bobadela, e outro apenas para crianças, em Lisboa. Nestas duas casas, são sempre necessários alimentos não perecíveis.
Mas é preciso mais. O CPR está constantemente à procura de voluntários que queiram ajudar. Nesta altura precisa especificamente de professores de português, que possam ensinar os refugiados a falar a nossa língua.
Se quiser oferecer a sua casa, ou outra habitação que possa acolher pessoas, também é bem-vindo.
Todas as propostas de ajuda devem ser enviadas para o mail: geral@cpr.pt
Serviço Jesuíta aos Refugiados
Já foi criado um email para centralizar todas as ajudas:par@jrsportugal.pt. Envie a mensagem a explicar como quer e pode ajudar.
Em breve haverá uma conta bancária específica para a ajuda aos refugiados e ainda um número de telefone.
O SRJ procura sempre voluntários.
Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados
O ACNUR está à procura de estagiários que possam fornecer ajuda no apoio legal aos refugiados, na angariação de fundos e na formação de equipas para tratarem de assuntos externos e questões administrativas.
Faça você mesmo, sem sair do sofá
Vender no Ebay e doar ao mesmo tempo
Costuma usar o Ebay para vender e comprar coisas? Pois bem, este site de compras online tem um “braço voluntário”, o Missionfish, que também agrega os pagamentos através do PayPal. Basta ir aqui e dizer quanto quer doar do dinheiro que conseguiu através da venda de um produto. A percentagem a doar é escolha sua.
Uma lista de bens para refugiados na Amazon
A Amazon criou uma lista de produtos que estão em falta nos campos de refugiados de Calais. Sapatos, lanternas, sacos-cama, aqui está apenas o que os refugiados precisam. Pode escolher o que comprar. Todos os produtos serão entregues em Calais no dia 17 de setembro.
Informe-se e ensine os seus filhos
Saber o que está a acontecer e explicar às crianças que crise é esta também é importante. Por isso, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados criou um documento especial para todos os professores, um kit com informações, jogos, exercícios e um DVD que vai permitir a quem educa trabalhar este tema nas aulas. O documento — Manual do Professor “NÃO SÃO APENAS NÚMEROS”/ Jogo de ferramentas educacional sobre migração e asilo na Europa — pode ser descarregado aqui, e está em português.
Para lhe facilitar o trabalho, pode consultar o pdf aqui mesmo ao lado.
Donativos em dinheiro
UNICEF Portugal
Pode fazer os donativos aqui. A UNICEF explica o que cada euro pode fazer pelas crianças. “Com 7€ por mês , a UNICEF pode fornecer 264 saquetas de PlumpyNut, um alimento terapêutica especial para crianças gravemente mal nutridas; com 60€ por mês , é possível fornecer 2.000 biscoitos de alto teor proteico para crianças mal nutridas em situações de emergência; com 194 € por mês , a UNICEF fornece um kit escola para 40 alunos e um professor.”
Serviço Jesuíta aos Refugiados
Poderá fazer o seu donativo através das seguintes opções:
- Transferência bancária para o NIB 0036.0071.99100093831.32
(Montepio) - Cheque / vale postal dirigido a: JRS-Portugal Serviço Jesuíta aos Refugiados,
para a seguinte morada: Rua Rogério de Moura, Lote 59, Alto do Lumiar, 1750-342 Lisboa
Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados
Pode fazer um donativo, a título único ou ajudar mensalmente. A ONU diz que há quatro milhões de refugiados sírios. Com os donativos que recebeu até agora já conseguiu ajudar mais de duas mil famílias. Algumas estão em campos de refugiados na Jordânia, mas 84% vivem fora dos campos e é preciso dar-lhes assistência. No site da Agência para os Refugiados pode ver quanto custa ajudar uma família durante uma semana ou durante um ano inteiro.
Save The Children
As caras das crianças refugiadas não deixam ninguém indiferente e sabe-se que muitas delas viajam sozinhas, sem os pais. A organização internacional Save The Children existe para cuidar delas e pede donativos. São já dois milhões de crianças a viver em campos de refugiados.
Esta organização não governamental diz que já conseguiu ajudar, dentro da Síria, 275 mil crianças e famílias com comida, água potável, medicamentos e alojamento.
Cruz Vermelha Internacional
Enquanto a Cruz Vermelha Portuguesa não tem uma campanha específica para a crise dos refugiados, pode fazer donativos na Cruz Vermelha Internacional.
Artigo do Observador.
Reconheço que não se possa dizer "As fronteiras estão abertas, venham todos!", que a Europa não tem capacidade para assimilar todos aqueles que fogem dos seus países em busca do European Dream. Sei que os sonhos, porque são sonhos, não têm uma concretização ao alcance de todos e que à grande maioria resta mesmo só sonhar. Estou consciente de tudo isso. Mas nenhum de nós pode ficar indiferente à vala comum em que se transformou o Mediterrâneo. A imagem da criança de três anos a "dar à costa" é só mais uma. Mais pesada, porventura, pela idade da vítima e até pelas memórias que todos temos recentes, de meninos e meninas como aquele, junto ao mar, mas felizes e acompanhados, no Verão que ainda não findou. Acontece que trazer a imagem e dizer que é triste não me pareceu de grande valia. Parto do princípio, que assumo como bom, que quem passa por aqui não me toma por alguém sem coração. Por isso, vir contar-vos do murro no estômago que foi olhar para aquilo seria pouco mais que redundante. A somar a este guia prático, acho mesmo que o Mundo deve pensar numa estratégia concertada para devolver os países desta gente a esta gente... implementar regimes democráticos, ainda que transitoriamente de empréstimo. E, enfim, responder à guerra sem oferecer a outra face de mais inocentes. Sou pela paz, mas é preciso que haja condições para sermos por ela. Se não, a paz é só verbo de encher. E verbo de encher, infelizmente, não salva ninguém. Talvez os nossos donativos nos permitam dormir de consciência mais tranquila mais logo e não resolvam mais nada. Mas enfim... acender, no breu, uma chama pequenina na esperança pode ser muito.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
OXI
Eu não sei o que vai ser feito da Grécia, nem de nós, nem da Europa como nos querem vender que ela
é (ou pode, ou devia, ou tem de ser). Eu sei que não consigo deixar de admirar os gregos, de lhes invejar a força de virarem a mesa. Eu nem sequer sei se o que fizeram ontem reproduz a sua coragem, ou a sua falta de noção. Sei apenas que quando não nos resta mais nada, sobra sempre a derradeira hipótese de dizer não. Parece-me que, se não for por mais nada, os gregos merecem ser aplaudidos pelo orgulho com que disseram: "No fim pode só haver abismo, mas então... escolhemos nós o caminho para lá chegar!"
terça-feira, 7 de abril de 2015
quinta-feira, 26 de março de 2015
É a igualdade, estúpido!
Uma pessoa habitua-se a ver que discriminação em função da orientação sexual é uma coisa inconstitucional, que matar pessoas por causa disso entra num dos exemplos padrão do homicídio qualificado, que a liberdade é um bem fundamental, que as sociedades estão mais tolerantes, que uma série de outras coisas... Depois lê uma notícia destas e procura o calendário, à pressa, em busca de uma justificação esfarrapada que associe a má piada ao dia das mentiras, mas verifica que estamos em Março e é obrigada a deitar as mãos à cabeça e a pensar que a raça humana tem laivos de estupidez preocupantes, assim, de tempos a tempos, que abanam o Mundo e nos fazem questionar para onde raio caminhamos... Há dias em que até tenho vergonha de pertencer à categoria das sobranceiras pessoas humanas. Sinceramente.
quinta-feira, 19 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
A decência como limite ou, então, a função da decência na proibição dos excessos de estupidez
Deve ser por andar a ler muitas asneiras sobre a culpa, ou assim, mas não encontro maneira melhor de olhar para a notícia que dá conta da iniciativa norueguesa para criminalizar as dádivas aos sem abrigo. Vamos por partes, que a indecência é muita e os equívocos não ficam atrás. Primeiro: A Noruega não inventa nada, que a Noruega é um país e os países, pese embora todas as suas imensas valências, que eu saiba, ainda não têm cabeça para pensar. Vai daí que eu gostava mesmo, mesmo, era de saber quem foi a infeliz criatura de cujos neurónios saiu tamanha triste ideia. Gostava. A notícia menciona apenas o vice ministro da justiça, mas não me esclarece se foi da lembradura de Vidar Brein-Karlsen que brotou a ideia. Para mim, como cidadã do mundo, jurista e curiosa, era importante perceber a origem da coisa. Segundo: Criminalizar? A sério? Querem mesmo cri-mi-na-li-zar isto? Querem mesmo convencer-me que há um bem jurídico com dignidade penal que subjaz à criação de uma norma desta natureza? A sério que sim? Que me vão tentar fazer perceber que no conflito evidente de tantos interesses, deve prevalecer um que permite reduzir as pessoas a coisa nenhuma? A sério? Vão mesmo insistir nisso e continuar a acreditar que alguém com o mínimo de sentido humanista aceita a explicação? A sério? Plasalmas!!! Terceiro: A fome, tal como as formas de a combater, é assunto de tudo menos da lei. A fome tem de ser combatida com políticas sociais de integração dos sem abrigo, iniciativas várias que garantam o direito à vida por parte destas pessoas, planos agregadores de quem precisa e de quem pode dar, como grandes empresas, por exemplo, ou, curiosamente, na minha ideia, os Estados. A sério que a Noruega, esse país lá longe que tenho acalentado o sonho de conhecer, vai desiludir-me assim desta maneira e chamar pulha a quem a única coisa que mata é a fome alheia? A sério. Tenho tanta pena da Noruega, pá. A seguir por este caminho, é capaz de, lá no Norte, se transformar noutra grande inimiga dessa imagem boa que ainda insisto em manter do chamado Primeiro Mundo.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Erros ortográficos
Depois de Crato vir a público dar conta dos números miseráveis de professores com domínio da língua portuguesa, não tenho conseguido deixar de olhar ainda mais criticamente para os erros dos exames que tenho em cima da mesa. Continuo a achar que o exame dos professores não devia existir e não avalia o que, em rigor, tem de ser avaliado. Apesar disso, e porque continuo do lado dos professores, acho que darmos o flanco confundindo o há com o à e construindo frases com uma sintaxe desprezível nos fica mal. A partir do momento em que escrevo assim, e, pior, penso que não é grave, dou azo a todo o tipo de aproveitamento político dos exames que me fizerem. Porque é verdade que só posso sentir vergonha de um país em que tanta gente prestes a licenciar-se, muito cheia de si, até, continua a escrever "concentimento", "impotação", "requesitos", "como vem na norma que encontrasse no art...", "adquação" e por aí fora. Conto pelos dedos de uma mão, e sobram-me dedos, os exames em que se escreve sem erros e em que as frases fazem algum sentido. Ouvir o ministro pôs-me, por causa disso, perante uma evidência inultrapassável: sou conivente com isto. Ando há anos a ser conivente com isto, a mandar para a rua gente que não sabe escrever e que, porque sim, vai passando, por entre os pingos da chuva, até chegar a fazer peças processuais com erros. Sinto-me, estou quase certa, como hoje se sentirão os professores dos actuais professores que escreveram com erros ortográficos e de sintaxe na prova. Sinto-me uma incapaz. E estou infeliz. Ninguém duvida que não escrever bem devia ser factor automático de eliminação de uma pessoa que vai ganhar a vida a escrever, certo?! É o mesmo que não correr e querer ser maratonista. Ou não costurar e apresentar-se como modista. Acontece que andamos todos a fechar os olhos à asneira, a ver cuspir na língua portuguesa, a aceitar que a malta nova agora é assim... e a deixar que apareçam professores e demais Drs. a precisar, isso sim, de voltar ao tempo em que, por cada erro, se descontava e bem. Estou absolutamente intolerante ao erro e, cá por mim, metade desta gente chumbava e só me aparecia à frente quando soubesse escrever. É isto.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Sobre a vergonha alheia
Acho que um dos piores sentimentos que podemos ter relativamente a alguém é o sentimento de vergonha alheia. Aquele misto de comiseração e repúdio que nos faz desviar da cena, de mansinho, procurando que não nos confundam com ela. Uma espécie de paternalismo travestido de sensação de ridículo. Este fim de semana, senti isso relativamente a todos aqueles que se puseram aos berros em frente ao Estabelecimento Prisional de Évora. Carneiradas fazem-me espécie, como se abafassem a réstiazinha de originalidade que podemos manter no mundo de centrifugação acelerada que é este, o nosso, em pleno século XXI. Esta, no entanto, fez-me mais que espécie... fez-me sentir vergonha alheia. Não tenho rigorosamente nada (nem, aliás, tinha de ter) contra quem acredita no 44. E, por causa disso, acho lindamente que os amigos lhe prestem solidariedade. Escusam, no entanto, é de o fazer à conta daquele ridículo, estropiando a credibilidade da investigação judicial e a nota mental do Grândola, Vila Morena. Não é triste ficar do lado do 44, é triste, em nome disso, montar um circo em frente a uma prisão e dar combustível às novelas dos canais noticiosos mais sensacionalistas. Já aqui disse uma vez e digo novamente: não acho nada que os amigos se vejam no hospital e na prisão. Acho que o miserabilismo convida muito mais gente a entrar-nos casa dentro que o sucesso. Por isso, custa-me, honestamente, a crer que alguém leve a sério a tenda armada em Évora este fim de semana. Faz-me lembrar o Isaltino e as eleições. Ou a Fátima Felgueiras e as entrevistas no Brasil. E isso, enfim, nunca é um bom sinal.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Curiosidades do Mundo lá fora!
Em algumas comunidades africanas, nomeadamente angolanas, o representante legal máximo dos incapazes é o tio materno das crianças. Numa situação em que seja necessário prestar um consentimento em vez e por causa da criança, esse consentimento não é prestado pelos pais, mas pelo tio materno. A explicação é simples: a certeza dos genes versus a mera presunção de paternidade. Ao que parece, circula um provérbio antigo entre os povos: Os filhos da minha filha, meus netos são. Os filhos do meu filho, são, ou não. E é isto. Tomam-nos por rameironas com uma facilidade inacreditável!
Ouvido por aí... um conselho precioso!
Não te drogues.
Se te drogares, não te injectes.
Se te injectares, não uses a seringa do teu amigo.
Chama-se "contenção de riscos"!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Da vida... a espantar-nos
Hoje, debaixo de uma chuva miúda e fungando de um nariz ranhoso, vinha eu muito agasalhada com uma capa preta quando a A. se abeirou, confundindo-me a capa com uma toga. A impaciência com que me pediu ajuda fez-me deixar de lado explicações sobre isso de ter a inscrição suspensa e não fazer da advocacia vida já há uns anos. Nem quando, aos seus queixumes, imperturbável, sugeri o apoio judiciário, a A., nobre, se exaltou. Explicou-me a vagar que vai a tribunal na quarta feira que vem. Que desde Agosto que não vê a filha. Que a criou o melhor que pôde durante nove anos. Mas que voltou a consumir. E que a vida se virou do avesso outra vez. Que só quer, "oh doutora", ver a menina. Nem que seja com mais gente ao pé. Mas vê-la. Promete não ir para lá a cair. Por favor. Ouvi a história e disse o que tinha a dizer. Enfiei-me no carro e revi o vídeo gravado hoje de manhã. Uma pessoa estuda sobre a limitação, sobre a inibição, sobre os pais e os filhos apartados, e vai a vida e põe-nos a A. assim à frente. Como um caso prático. Tão triste.
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